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04 agosto 2026

Futuro da contabilidade?


Do IasPlus:

Em 1º de maio de 2026, a CPA Australia reuniu organismos emissores de normas, reguladores, investidores, acadêmicos e profissionais para discutir como os relatórios corporativos podem refletir melhor a criação de valor em um mundo cada vez mais impulsionado por softwares, dados, inteligência artificial e outros ativos intangíveis. Foi agora publicado um relatório com os principais insights do “CPA Australia Intangible Summit 2026”.

O relatório observa que, em uma economia global na qual o valor das empresas é cada vez mais determinado por dados, inteligência artificial, softwares e outras capacidades viabilizadas pela tecnologia, os relatórios financeiros tradicionais podem deixar de evidenciar importantes indicadores de criação de valor. Os participantes da conferência discutiram por que essa lacuna é relevante, como a diferença entre o valor contábil e o valor de mercado está aumentando, por que os requisitos atuais não foram concebidos considerando os ativos intangíveis gerados internamente e interconectados, e como uma melhor divulgação, desagregação e conectividade das informações poderia proporcionar dados mais úteis a investidores, elaboradores das demonstrações e outros usuários.

O relatório também apresenta diversas recomendações importantes identificadas durante a conferência.

Principais recomendações

Adoção, pelo International Accounting Standards Board (IASB), de uma abordagem gradual para aprimorar a divulgação e o reconhecimento de ativos intangíveis relacionados à tecnologia: o IASB deveria começar pelas necessidades dos usuários, pela divulgação e pela desagregação das informações, enquanto continua examinando, no longo prazo, questões de reconhecimento e mensuração relacionadas à computação em nuvem, ao software como serviço — software as a service (SaaS) —, ao desenvolvimento de softwares, aos dados e às capacidades viabilizadas pela inteligência artificial.

Priorizar melhorias na divulgação: melhorar a qualidade, a consistência e a comparabilidade das informações divulgadas sobre ativos intangíveis relacionados à tecnologia, incluindo a maneira como os investimentos sustentam os modelos de negócios, as capacidades organizacionais e os fluxos de caixa futuros.

Aprimorar a conectividade entre os relatórios financeiros, os relatórios de sustentabilidade e outros relatórios narrativos: assegurar que as informações sobre ativos intangíveis apresentadas nas demonstrações financeiras, nos relatórios de sustentabilidade, nos comentários da administração e em outros relatórios corporativos estejam alinhadas, de modo a garantir a conexão entre as rubricas das demonstrações financeiras, as divulgações não financeiras e, sempre que possível, as evidências de resultados concretos.

Desenvolver denominações padronizadas e requisitos mais claros de desagregação e divulgação: reduzir as inconsistências na terminologia utilizada para os ativos intangíveis relacionados à tecnologia, incluindo ativos de software, gastos com pesquisa e desenvolvimento e outros ativos intangíveis correlatos gerados internamente, para que os usuários possam comparar informações entre entidades e períodos de maneira mais confiável.

Desenvolver requisitos mais claros de desagregação e divulgação: possibilitar o fornecimento de informações mais claras, nas demonstrações financeiras primárias, sobre a natureza dos gastos com pesquisa e desenvolvimento — Research & Development (P&D) — e dos gastos relacionados a softwares. Exemplos de informações desagregadas poderiam incluir pesquisa aplicada; custos de desenvolvimento reconhecidos na demonstração do resultado ou no balanço patrimonial; infraestrutura de dados; desenvolvimento de modelos de software; e investimentos em capacidades de inteligência artificial.

Rir é o melhor remédio

 

Música deprimente

Empresas controlam gastos com IA

Alguns estão pensando que IA não tem custo. As empresas estão descobrindo que funcionários tem a tendência a consultar demais a ferramenta para resolver problemas do trabalho. O resultado é que o gasto com IA tem aumentado. Eis uma situação típica


A EY afirma que seu roteador de IA "invisível" ajudou a reduzir o consumo de tokens em até 60% [ Business Insider ]. A EY não permite que todas as consultas de funcionários sejam direcionadas diretamente para o modelo de IA mais inteligente disponível. A empresa, uma das quatro maiores do setor, introduziu um roteador "invisível" para ajudar a gerenciar seus gastos internos com IA, disse Dan Diasio, líder global de IA para consultoria da EY, ao Business Insider. Implementado globalmente em abril, o roteador fica por trás de algumas das ferramentas de IA especializadas da EY e atua como intermediário para direcionar os funcionários ao melhor modelo de IA para a tarefa em questão. O roteador, juntamente com estratégias de treinamento e governança, ajudou a reduzir o consumo de tokens em 60% desde sua implementação em abril, afirmou a EY.

IA e auditoria

Em um recente pedido de comentários públicos, o conselho perguntou aos participantes se deveria prosseguir com a definição de padrões e pesquisas nessa área. Espero que a pergunta tenha sido retórica, porque a resposta é um sonoro sim, e isso deveria ter começado ontem.


O conselho tomou algumas medidas em relação à IA. No mês passado, formou um conselho de modernização das inspeções para melhorar a qualidade das auditorias. Entrou em contato com empresas para discutir o uso de IA generativa em auditorias e monitorou o uso de IA pelos auditores. A ex-presidente do PCAOB, Erica Williams, enfatizou que a adoção da IA ​​não substitui o conhecimento e o julgamento do auditor.

É um bom começo, mas insuficiente, pois se trata basicamente de aplicar padrões existentes a um novo paradigma. O PCAOB precisa estabelecer diretrizes claras sobre o uso aceitável de IA antes que tenhamos uma reprovação em auditoria resultante do uso inadequado de IA. É provável que já tenhamos tido uma, mas ainda não sabemos.

Nos últimos dois anos, três das quatro maiores firmas de contabilidade globais tiveram que retratar relatórios devido a alucinações da IA. É apenas uma questão de tempo até que uma firma seja forçada a retratar um relatório de auditoria porque a IA alucinou evidências de auditoria ou porque os auditores não revisaram ou supervisionaram adequadamente os agentes de IA que coletavam e analisavam as evidências de auditoria.

Grifo meu. De Jack Castonguay, Bloomberg Tax, via aqui. Imagem aqui

03 agosto 2026

O caso de um Picasso rifado

A notícia de abril de 2026 estava guardada para uma postagem. O caso é bem interessante e pode ser usado em sala de aula ou pelos amantes da contabilidade que procuram um assunto para conversa. A notícia é a seguinte: uma fundação vinculada à pesquisa sobre Alzheimer fez uma rifa para arrecadar fundos, sorteando, entre os compradores dos bilhetes, um quadro, Cabeça de Mulher, do pintor Pablo Picasso.


O preço de cada bilhete era de 100 euros, e o quadro tinha um valor de avaliação de 1 milhão de euros. O valor arrecadado foi de 12 milhões de euros, deixando uma diferença de 11 milhões para uso da fundação. Os detalhes estão no texto de Bia Cardoso, publicado no Estado de S. Paulo em 16 de abril, ou disponível on-line aqui.

Vamos imaginar a contabilidade da fundação que promoveu a rifa, de um comprador de um bilhete e do comprador do bilhete vencedor. E considerar dois momentos distintos: antes e depois do sorteio.

Na fundação, antes do sorteio, o quadro fazia parte do ativo (1). O valor registrado poderia ser de 1 milhão de euros, mas é provável que fosse bem menor, já que poderia estar registrado pelo custo histórico. Ao longo do sorteio, a fundação teria que registrar a receita arrecadada com a rifa, tendo como contrapartida o débito em caixa. Quando do sorteio seria necessário dar baixa no quadro, retirando-o do ativo e registrando seu custo no resultado.

E quanto a um comprador do bilhete? Na sua contabilidade pessoal, haveria a possibilidade de um ganho potencial correspondente ao quadro. Aqui temos uma controvérsia teórica e normativa interessante. Fazendo uma conta simples, foram arrecadados 12 milhões de euros, e cada bilhete custava 100 euros. Foram vendidos 120 mil bilhetes, o que implica uma chance muito reduzida de ganhar o quadro. Eu entendo que, nesse caso, ao comprar o bilhete, deveria ser registrada uma saída de caixa e uma despesa; ou seja, ter o bilhete não configuraria um ativo para um comprador típico da rifa. Assim, após o sorteio, nada seria registrado, exceto pelo vencedor.

O vencedor deveria ter registrado, ao comprar o bilhete, a despesa e sua contrapartida, a saída de caixa. Mas, ao receber a notícia, o dono do bilhete passa a possuir um ativo de 1 milhão de euros. E qual seria a contrapartida? Algo na sua demonstração do resultado, que a contabilidade talvez chamasse de “ganho” ou de receita não recorrente.

(1) Rigorosamente, o quadro era da Opera Gallery, que recebeu 1 milhão do quadro. Fiz uma simplificação do caso aqui. 

31 julho 2026

Uma história dos doutores em contabilidade do Brasil

 Um levantamento feito pelo prof. Sandro, da UFSC, nas bases oficiais do governo, mostrou que entre 1962 e 2024 foram titulados 1162 doutores em contabilidade no Brasil. Os dez primeiros doutores foram, na ordem:

E para conseguir os primeiros dez doutores na área foram necessários 11 anos. Entre os orientadores, o campeão é o grande professor Eliseu Martins, com 32 orientações, seguido de Nelson Carvalho, com 28, e Sérgio de Iudícibus, com 24. Todos da universidade que fez a história da contabilidade no Brasil, a USP.
(O autor da postagem tem meras 18 orientações).
Por ano, temos a seguinte figura:

 É fantástico o crescimento da nossa área ao longo do tempo. Finalmente, em termos de instituição de ensino, a USP formou 390 doutores (ou um terço do total) (e sem contar a USP Ribeirão), seguido da UnB (117, mas esse número está inflado, já que considera também os doutores do programa Multi) e FURB (112, esse sim um valor de destaque, já que está no interior do país). 

Civilização pré-colonial na Amazônia


Eis o resumo, do artigo da Nature:

Numerosas estruturas geométricas de terra foram encontradas no sudoeste da Amazônia, constituindo evidências de uma civilização pré-colonial construtora de monumentos.Esse conhecimento tem contribuído para o debate sobre a história profunda e o urbanismo pré-colonial da Amazônia, seus contextos socioculturais e seu legado ambiental. As estimativas da extensão geográfica e do tamanho da população dessa civilização florestal permaneceram pouco precisas, pois a detecção dessas estruturas esteve quase exclusivamente limitada a áreas desmatadas, onde a vegetação não as oculta completamente. Neste estudo, utilizamos dados de LiDAR, capazes de atravessar a cobertura vegetal, coletados ao longo de 4.430 km de voo, para definir com maior precisão a distribuição geográfica e a quantidade dessas estruturas na região. Com base tanto nos dados já existentes quanto em nossa documentação por LiDAR, demonstramos que essa área cultural, por si só, contém tantas estruturas de terra quanto anteriormente se estimava para toda a Amazônia. Também propomos que a população total da região entre os anos 100 e 300 d.C. era de 1,25 milhão a 3 milhões de pessoas. Caso resultados semelhantes sejam encontrados em outras partes da Amazônia, deverão ser reavaliadas a densidade populacional pré-colonial total e sua influência sobre os solos e a estrutura atual da floresta amazônica, sobre a biodiversidade e até mesmo sobre alguns modelos do clima global.

O local onde foram realizadas as descobertas é o Acre. E há cientistas de outros países, como Finlândia e Dinamarca, além de pesquisadores brasileiros

Valuation de IA: valores projetados são irrealistas

Na verdade, sou bastante pessimista em relação às avaliações dos laboratórios de IA de fronteira. Nunca vi os argumentos a favor dessas avaliações formulados de maneira que me convencesse; por isso, antes de dormir, quis registrar rapidamente aqui meu raciocínio.

O problema básico é que esses laboratórios apresentam prejuízos muito elevados. Isso pode parecer um ponto simples, mas as avaliações no mercado privado podem ser relativamente irracionais. No entanto, como provavelmente ocorrerá com a $SPCX, a precificação após a abertura de capital tende a ser muito mais severa, sobretudo quando terminar o período padrão de lock-up de seis meses e a pressão vendedora aumentar.

Muitas pessoas afirmam que os laboratórios possuem margens elevadas. Contudo, mesmo com margens altas, uma avaliação de US$ 1 trilhão só seria justificável se eles não fizessem nada além de fornecer inferência — limitando, portanto, seus custos àqueles diretamente relacionados à inferência — e registrassem receitas anuais entre US$ 100 bilhões e US$ 200 bilhões, supondo uma margem bruta de aproximadamente 80% e um múltiplo de 20 vezes o lucro.

Essa hipótese evidentemente não é verdadeira, porque os laboratórios de fronteira precisam gastar continuamente para treinar a próxima geração de modelos. Isso decorre da concorrência de empresas que vêm logo atrás. Por exemplo, se a OpenAI tivesse interrompido o desenvolvimento de modelos no ano passado, já não haveria motivo para pagar os preços da API do GPT-5 quando seria possível simplesmente usar Qwen ou Kimi por um custo muito menor.

Assim, os laboratórios são obrigados a investir quantias cada vez maiores no treinamento de modelos. A dinâmica é tal que, em qualquer momento, o valor que precisam investir no próximo modelo é dramaticamente superior ao dinheiro que efetivamente estão ganhando. Isso ocorre porque, ainda que a receita aumente com a maior capacidade dos modelos, os custos futuros de treinamento também aumentam. Trata-se de uma dinâmica profundamente desfavorável, que penaliza severamente as empresas que estão na liderança.

Há também um ponto relacionado: os laboratórios de fronteira afirmam que podem destilar seus modelos mais avançados e, assim, vencer também nos níveis inferiores de inteligência. Isso não faz sentido, porque as receitas envolvidas são muito baixas quando se considera a margem relativamente reduzida desse tipo de inferência.

As avaliações dos laboratórios de fronteira parecem estar amplamente baseadas na hipótese de que, à medida que a escala aumenta, as capacidades emergentes serão suficientemente gerais e profundas para produzir um crescimento explosivo, como discutido aqui: https://epoch.ai/publications/explosive-growth-from-ai-a-review-of-the-arguments. Isso incluiria, por exemplo, agentes de IA capazes de criar e administrar autonomamente empresas inteiras formadas por subagentes.

No entanto, não está claro para mim que isso realmente ocorrerá. Como mencionei em minha publicação anterior — https://x.com/andrewho03/status/2082615798011744270 —, acredito que o crescimento das capacidades será mais lento, mais irregular e mais limitado pela disponibilidade de dados do que as pessoas atualmente supõem.

É possível que, em algum momento, vejamos um crescimento explosivo dessa natureza, acompanhado pela automação completa da economia. Mas, no mínimo, minha visão implica horizontes muito mais longos, de várias décadas, até chegarmos a esse ponto. Não está claro para mim que os laboratórios de fronteira conseguirão operar com prejuízo durante tanto tempo, embora talvez isso antecipe algum tipo de nacionalização inevitável.

Também quero fazer uma observação mais ampla sobre a difusão tecnológica. A razão pela qual a difusão de tecnologias é lenta não é apenas porque, por exemplo, pessoas mais velhas demoram a aprender a utilizá-las, embora isso evidentemente contribua em alguma medida.

Na minha visão, quando surge uma tecnologia nova e revolucionária, nem sempre são óbvias as maneiras de incorporá-la aos desenvolvimentos subsequentes. Na verdade, essas maneiras não podem necessariamente ser descobertas apenas pela aplicação da razão pura. Caso pudessem, talvez os modelos de fronteira, a partir de determinado ponto, adquirissem uma compreensão perfeita de como a camada de aplicações baseada em grandes modelos de linguagem deveria ser desenvolvida. Em seguida, seriam capazes de programar, implantar e comercializar autonomamente essa camada.

Parece-me mais plausível, contudo, que essa difusão seja limitada sobretudo pelo difícil problema do cálculo econômico — isto é, pela concepção hayekiana segundo a qual o sistema de preços promove gradualmente a alocação eficiente de recursos, algo que não pode ser reproduzido por meio do planejamento central.

Mesmo que congelássemos hoje os níveis atuais de capacidade, provavelmente seriam necessárias bem mais de duas décadas para integrar plenamente os grandes modelos de linguagem à nossa vida cotidiana.

Essa perspectiva é, consequentemente, bastante pessimista em relação à continuidade da rentabilidade dos laboratórios, pois reduz as chances de que encontrem, por exemplo, outra aplicação com rentabilidade comparável à dos agentes de programação, cuja descoberta pela Anthropic parece ter envolvido certa dose de sorte.

Em outras palavras, mesmo que se mobilize um grande número de engenheiros de implantação avançada — os chamados FDEs, ou forward-deployed engineers —, isso não significa necessariamente que será possível descobrir com rapidez suficiente os formatos “corretos” de produto.

De modo geral, não acredito que as pessoas tenham refletido com clareza sobre os modelos mentais que sustentam a ideia de que as participações acionárias nesses laboratórios devam valer tanto quanto valem atualmente. Caso alguém realmente se disponha a formalizar esse modelo, talvez não chegue à conclusão a que gostaria de chegar.


Isso não significa que eu não espere que a inteligência artificial passe por uma enorme expansão, em toda a indústria, nas próximas décadas. Significa apenas que não tenho certeza de que compraria ações da OpenAI ou da Anthropic pelos seus valores mais recentes, caso tivesse a oportunidade de fazê-lo.

Naturalmente, como ex-funcionário de um desses laboratórios, pode-se dizer que estou falando contra os meus próprios interesses. Na verdade, eu deveria estar oferecendo às pessoas mais razões para serem otimistas. Mas, no fim das contas, minha influência é tão pequena que isso não faz diferença. Então, por que não se divertir um pouco?

Traduzido daqui

Resumindo, os valores projetados da OPA das empresas de IA são irreais, pois essas empresas não conseguiram entregar valor - lucro, no longo prazo. Será um prenúncio para uma crise no mercado acionário? O autor, Andrew Ho, foi funcionário da OpenAI. E o texto foi traduzido pelo GPT

30 julho 2026

Mudanças na Fundação IFRS

Não sabemos os bastidores, mas a Fundação IFRS anunciou a nomeação da ex-sócia da KPMG Laura Forzani (foto da internet) como sua diretora executiva. Forzani deve assumir em setembro e ira substituir Michel Madelain, que ficou dois anos no cargo. .


No cargo, Forzani será "responsável pela gestão da Fundação IFRS e de sua equipe, bem como pela implementação e execução de seus objetivos globais. A função inclui apoiar as prioridades de governança, financiamento e operação, trabalhando em estreita colaboração com as lideranças do International Accounting Standards Board (IASB) e do International Sustainability Standards Board (ISSB)." 

É um cargo administrativo, mas depois de um período de forte expansão no quadro de pessoal, há rumores sobre a questão de sustentabilidade financeira da entidade. Além disso, há um refluxo mundial na questão de sustentabilidade. O tema, que era quente quando o ISSB foi criado, tem sofrido resistência por parte dos governos e até mesmo dos reguladores. 

Mas os problemas não param, pois desde meados do ano a condução do Iasb tem sido feita pela vice-presidente. Andreas Barckow encerrou seu mandato no mês passado e espera-se um substituto até 1º de outubro.

Fabricantes de cigarros e os custos de saúde pública

A notícia:

Uma ação judicial histórica movida em 2019 pela Procuradoria-Geral da União (AGU) do Brasil, buscando responsabilizar financeiramente as maiores fabricantes de cigarros do país pelos enormes custos de saúde pública causados ​​pelo tabagismo, atingiu um marco crucial. Todas as petições legais foram concluídas, incluindo um parecer do Ministério Público Federal que corrobora as alegações da AGU. O caso agora aguarda decisão do Tribunal Federal de Porto Alegre sobre a responsabilidade das empresas de tabaco pelos danos causados ​​pela comercialização e venda de seus cigarros no Brasil.


O processo busca obrigar as maiores fabricantes de cigarros do país a indenizar o sistema público de saúde brasileiro pelos gastos com saúde relacionados a doenças comprovadamente associadas ao uso do tabaco. Entre os réus estão a BAT Brasil (antiga Souza Cruz) e a Philip Morris Brasil, e suas controladoras, British American Tobacco e Philip Morris International.

Este caso é um dos mais importantes processos judiciais do mundo para recuperação de custos com saúde relacionados ao tabaco e pode ter implicações muito além do Brasil. Se bem-sucedido, o caso reforçaria o princípio de que as empresas de tabaco devem ser responsabilizadas pelos enormes custos econômicos e de saúde causados ​​por seus produtos.

As empresas de cigarro sabiam do mal que estavam causando. Nesse momento, ocorre o mesmo com as empresas de apostas. 

Empresas estão comprando livros antigos

A notícia me deixou confuso: empresas de inteligência artificial estariam comprando livros antigos, digitalizando-os e destruindo os exemplares físicos remanescentes. Essas obras teriam a vantagem de estar livres de textos produzidos pelos algoritmos, o que as tornaria mais confiáveis para o treinamento desses sistemas. Vendedores de livros em grandes quantidades confirmam que o mercado está aquecido e que esse movimento tem ajudado a reduzir os estoques de obras que permaneciam paradas.


Fico em dúvida, pois imagino que grande parte do uso atual da inteligência artificial envolva assuntos recentes, que não estariam contemplados em livros antigos. Essas obras, entretanto, poderiam apresentar a vantagem de contribuir não apenas para o treinamento relacionado ao conteúdo, mas também para a formação de uma base de conhecimento, oferecendo fundamentos científicos consolidados e modelos de linguagem e comunicação.

Político leu um discurso com instruções da IA

Imagine ler um discurso importante na frente de todos os seus colegas e, acidentalmente, recitar em voz alta o feedback da IA ​​que você ou seu assistente usaram para aprimorar o texto. Em seguida, um vídeo da gafe viraliza nas redes sociais — tão viral que diversos veículos de imprensa, incluindo The Independent , Fast Company e Futurism, noticiam o episódio constrangedor em detalhes. Eu, pessoalmente? Morreria de vergonha, me esconderia num buraco e pediria demissão, nessa ordem. Mas talvez Bill Oliver, da Assembleia Legislativa de New Brunswick, esteja lidando com a situação de forma diferente:

Já não sei quantas vezes precisamos repetir, mas a IA NÃO VAI FAZER O SEU TRABALHO POR VOCÊ!

Fonte: Bloomberg newsletter 28 de julho

Filósofos: Empresas de IA estão contratando


O debate sobre se os sistemas de inteligência artificial (IA) podem se tornar conscientes inspirou algumas empresas de tecnologia a contratar filósofos . Mas os pesquisadores ainda não chegaram a um consenso sobre o que dá origem à consciência nos humanos, muito menos em um chatbot de IA — e alguns dizem que a questão é uma cortina de fumaça. "O que podemos estar vendo é uma espécie de apropriação da pesquisa sobre consciência pelo setor de IA", afirma o cientista da consciência Anil Seth. Por outro lado, o aumento do interesse pode ajudar a validar um campo que não foi levado a sério como empreendimento científico por anos — e atrair financiamento essencial.

Isto é da newsletter da Nature. O link está aqui

Imagem aqui

29 julho 2026

Confiabilidade da IA em finanças

Isso parece resumir muito:


Ao analisar 164 estudos sobre grandes modelos de linguagem (LLMs) em finanças, publicados entre 2023 e 2025, os pesquisadores identificaram vieses recorrentes — incluindo o uso não intencional de informações futuras, viés de sobrevivência, configurações de avaliação irrealistas e custos práticos negligenciados — que poderiam inflar o desempenho relatado. 

O estudo está aqui. Imagem aqui

Tendência dos relatórios de sustentabilidade serem menos concretos

Eis a notícia do excelente Iasplus

Pesquisadores da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, Instituto Coase-Sandor de Direito e Economia, publicaram um estudo intitulado " O que as divulgações de sustentabilidade revelam" . O estudo avalia mais de 15.000 documentos de divulgação de sustentabilidade emitidos por mais de 2.100 entidades com o auxílio de inteligência artificial. O estudo constatou que a elaboração de relatórios de sustentabilidade e a adoção de auditorias externas e estruturas voluntárias aumentaram consideravelmente após 2015. De acordo com o estudo, as entidades frequentemente adotam múltiplas estruturas simultaneamente e continuam a elaborar relatórios aplicando a(s) estrutura(s) selecionada(s). À medida que a elaboração de relatórios se tornou mais comum, os relatórios se tornaram menos específicos, menos quantitativos e menos concretos. Entidades que elaboram relatórios há mais tempo produzem relatórios mais concretos com mais notícias negativas. As estruturas voluntárias mostram associações mensuráveis, porém mistas, com o conteúdo das divulgações, concentrando-se naquelas estruturas que regem diretamente a composição de um relatório.

Imagem aqui. O artigo está aqui. 

Falha na contabilização do carbono


Eis um trecho:

Esses cientistas afirmam que a contabilidade de carbono corporativa, o sistema no qual o mundo se baseia para reduzir as emissões, está falhando. Mais de três quartos das emissões de uma empresa estão em sua cadeia de suprimentos , e é exatamente aí que os dados falham. Eles se baseiam em médias do setor que podem estar erradas em dez vezes: o equivalente a declarar US$ 10 milhões em receita quando o valor real é de US$ 100 milhões. Ninguém aceitaria isso em relatórios financeiros, então por que seria diferente com os dados de emissões, onde os riscos são muito maiores? Esses mesmos dados altamente incertos podem servir para cumprir requisitos legais, mas ninguém confia neles o suficiente para agir, então nada é feito. " Deveríamos estar medindo o carbono por um motivo: para reduzi-lo. No momento, não podemos. O sistema está quebrado ", disse o Dr. Spencer Brennan, autor principal e fundador da Neutreeno . 

Está falhando no pior momento. Governos de ambos os lados do Atlântico estão recuando quando as pessoas precisam que eles assumam medidas. A UE está flexibilizando as regras de emissões que regem mais de 10.000 fábricas e usinas de energia . E, em fevereiro, a EPA reverteu a conclusão de que os gases de efeito estufa representam um risco para a saúde pública , a própria base para sua regulamentação. Com essa supervisão enfraquecida, poucas empresas estão no caminho certo para atingir suas metas climáticas e nenhuma é realmente responsabilizada.

A análise inicial do texto acima pareceu razoável. A constatação que há um recuo nos governos, também. Mas a solução, em uma análise superficial, pareceu muito mais uma consultoria, do que uma opção realmente técnica. 


Rir é o melhor remédio

 

Advogados, carros robôs e segurança

28 julho 2026

Ativo, despesa de capital, fluxo de caixa livre e IA

 eis um trecho:


Os cinco maiores hiperescaladores, Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle, gastaram cerca de US$ 412 bilhões em despesas de capital em 2025. Para 2026, as estimativas chegam a aproximadamente US$ 760 bilhões. No entanto, a depreciação e amortização de despesas de capital com IA que essas empresas esperam reconhecer em relação a todos esses gastos em 2026 é de apenas cerca de US$ 211 bilhões.

Leia esses dois números novamente. Eles estão gastando US$ 760 bilhões e contabilizando US$ 211 bilhões como despesa. Os outros US$ 549 bilhões estão no balanço patrimonial, aguardando. Eles se tornarão um custo operacional mais tarde, quando o equipamento entrar em operação e o prazo de depreciação do capital de IA começar a contar. Uma boa parte disso ainda nem está funcionando, porque os data centers que o abrigam ainda estão em construção.

A maneira mais clara de perceber a discrepância é analisando o fluxo de caixa. Para 2026, a projeção é de que o fluxo de caixa livre combinado dessas cinco empresas caia 91%, para cerca de US$ 16 bilhões, enquanto o lucro líquido deve subir 25%, para aproximadamente US$ 506 bilhões. Uma empresa pode registrar meio trilhão de dólares em lucro e praticamente não gerar caixa no mesmo ano. Isso não é fraude. É depreciação calculada no momento certo. Não é preciso esperar pelos cálculos do ano inteiro para perceber isso. Somente no segundo trimestre, a Alphabet gastou US$ 44,9 bilhões em projetos de capital, mais que o dobro do ano anterior, e seu fluxo de caixa livre caiu para -US$ 5,9 bilhões, mesmo registrando US$ 40,8 bilhões em lucro operacional. O dinheiro já está saindo. O lucro reportado, porém, permanece inalterado.

O caso do talco pode estar perto de uma solução

Em empresa J&J, fabricante do famoso talco Johnson, anunciou na segunda que conseguiu um acordo na resolução de um grande conflito judicial, que estava colocando a empresa no chão. O acordo prevê pagamentos de 5,5 bilhões para resolver um grande número de processos que alegam que o produto provocava câncer de ovário.


O talco Johnson tem sido acusado de conter amianto, um produto cancerígeno. A acusação também diz que a empresa sabia do problema e durante décadas continuou oferecendo o produto como se fosse seguro. Para se ter uma ideia, há uma previsão de 76 mil processos, embora essa conta talvez possa chegar a 90 mil em breve. 

É interessante que a empresa afirma agora que seus produtos à base de talco nunca contiveram amianto. O produto teve venda interrompida nos Estados Unidos em 2020 e no mundo em 2023. Em um comunicado à imprensa, a J&J afirmou que o talco é seguro, não tem amianto e não provoca câncer. Isso realmente parece muito estranho já existem estudos indicando que o uso do talco pode estar associado a uma aumento no risco de câncer, embora a evidência seja inconsistente e não há uma relação causal. 

Essa não é a primeira vez que a empresa anunciou que tinha resolvido a questão. Mas parece que agora há o apoio de escritórios de advocacia dos demandantes e um apoio do governo para resolver o problema. Alguns analistas estão otimistas. 

Alguns estudos científicos (Via Consensus):

[1] Talc Exposure and Risk of Ovarian Cancer: A Systematic Review and Meta-Analysis with Limited Evidence on Cervical and Endometrial Cancers — M. S. Seyyedsalehi, W. Powley & P. Boffetta, 2026, Cancers. Citations: 0.

[2] Association of Powder Use in the Genital Area With Risk of Ovarian Cancer — K. O’Brien et al., 2020, Obstetrical & Gynecological Survey. Citations: 49.

[3] Exposure to Cosmetic Talc and Mesothelioma — J. Moline, K. Patel & A. Frank, 2023, Journal of Occupational Medicine and Toxicology. Citations: 16.

No Blog

Abril de 2025 Novo Capítulo

Fev 2025 Tentando não pagar

Maio 2024 Passivo do Talco

Fev 2023 Perde no tribunal

Out 2022 Usando a falência

SOX e aspectos negativos

O resumo:


O treinamento no trabalho (on-the-job training) é um dos principais motores do desenvolvimento de capital humano (Becker, 1962). Argumentamos que a Sarbanes-Oxley Act (SOX), voltada a fortalecer a independência do auditor, alterou a economia da contabilidade pública (public accounting) e, sem intenção, reduziu as oportunidades de os contadores investirem em seu capital humano no exercício da profissão. A SOX proibiu as firmas de contabilidade pública de oferecer serviços de consultoria a clientes de auditoria e introduziu barreiras à transição de contadores para empresas clientes. Isso enfraqueceu as oportunidades de colaboração entre auditoria e consultoria, limitou a exposição dos contadores à resolução de problemas de negócios dos clientes e reduziu o networking. Isso diminuiu as oportunidades de os contadores adquirirem experiência ampla, desenvolverem habilidades e expandirem redes profissionais, tornando a profissão contábil menos atraente, sobretudo para os talentos mais promissores. Usando dados em nível individual, comparamos contadores (grupo tratado) e consultores (grupo de referência/benchmark) antes e depois da SOX, dentro da mesma firma de contabilidade pública, período e localização. Após a SOX, os contadores passaram a ter menor probabilidade de migrar para funções de consultoria ou para clientes de suas firmas de auditoria, e seus salários caíram. Em linha com a ideia de que a redução das oportunidades de carreira desestimula a formação em contabilidade, constatamos uma queda na qualidade dos alunos que optam pelo curso de contabilidade após a SOX. Fundamentalmente, para conectar de forma mais direta as oportunidades de carreira às matrículas universitárias em contabilidade, mostramos que, quando declinam as transições de ex-alunos universitários da contabilidade pública para a consultoria, tanto a quantidade quanto a qualidade das matrículas subsequentes em contabilidade em suas universidades de origem também caem. Revelamos, assim, um custo até então negligenciado das regulações relativas à profissão contábil.

Vivek Pandey, Xingyu Shen, Joanna S. Wu, Xixi Xiao, Independence at what cost? Regulation, accounting careers, and human capital, Journal of Accounting and Economics, 2026, ISSN 0165-4101, Imagem aqui

27 julho 2026

Boas notícias para América Latina

Da The Economist (via aqui):


A proporção de pessoas que passam fome tem diminuído mais rapidamente na América do Sul do que em qualquer outro lugar do mundo. Caiu um terço desde 2020, segundo um relatório publicado em 21 de julho pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura ( FAO ). Apenas 3,5% da população da região consome calorias insuficientes, o menor índice já registrado. Eliminar a fome até 2030 é uma das metas de “desenvolvimento sustentável” da ONU . “Se existe uma região no mundo com potencial para alcançar esse objetivo, é a América do Sul”, afirma Máximo Torero, economista-chefe da FAO .

Lula, como o presidente é conhecido, fez da segurança alimentar uma prioridade quando retornou ao cargo em 2023. Até 2025, o Brasil saiu do  Mapa da Fome da ONU , que monitora países onde mais de 2,5% da população sofre de fome crônica. Chile e Guiana, rica em petróleo, também foram removidos da lista. A Argentina está quase lá, com menos de 3%. Colômbia e Paraguai estão se aproximando, com 4%, enquanto Peru e a Venezuela, assolada por crises, estão chegando perto de 5%. Até mesmo Equador e Bolívia apresentaram uma leve melhora, para 11% e 20%, respectivamente. Apenas o Suriname está caminhando na direção errada.

Essa queda se baseia em fundamentos mais sólidos. O primeiro deles é a estabilidade macroeconômica. Os bancos centrais da América do Sul são muito mais independentes e hábeis em controlar a inflação do que eram há duas décadas.

Temos uma grande tendência a enfatizar notícias ruins. Não lembro de ter visto a notícia acima sendo divulgada. 

Fiscalização como resposta ao escândalo: SEC


Eis o resumo:

Examinamos a intensidade investigativa dos escritórios regionais da SEC após um escândalo de profissionalismo no qual dezenas de funcionários da SEC foram flagrados acessando repetidamente pornografia na internet em dispositivos de trabalho. Constatamos que, quando o escândalo veio a público, os escritórios implicados intensificaram sua atividade investigativa, possivelmente para reparar sua reputação. Na época, a atividade de investigação em nível de escritório era observável pela alta direção da SEC e, potencialmente, por seus supervisores no Congresso, mas não pelo público em geral. Interpretamos essa resposta, portanto, sob a ótica da teoria da reputação burocrática, como um reparo reputacional direcionado à própria hierarquia da agência e a seus principais políticos — as audiências que de fato podiam observá-la. Observamos também que a sede da SEC instaurou mais investigações após a divulgação do escândalo, mas apenas nas regiões dos escritórios implicados, em linha com um aumento da supervisão e uma menor confiança nesses escritórios envolvidos no escândalo. Esses picos de intensidade investigativa foram de curta duração, mas os escritórios implicados no escândalo também emitiram mais AAERs (Accounting and Auditing Enforcement Releases) após o episódio, o que é consistente com a ideia de que esses escritórios aceleraram resultados de fiscalização reais e onerosos, e não apenas a abertura de investigações. De forma mais ampla, nossas evidências sugerem que o reparo reputacional dentro de um órgão regulador pode operar por meio de canais internos de accountability (responsabilização).

Trabalho aqui, Imagem aqui

Blann, James and White, Roger M.,

How Does the SEC Respond to Reputation Shocks?

(July 07, 2026). Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=7095618

Rir é o melhor remédio

 

Experimento natural

24 julho 2026

"Fico Feliz em corrigir o erro"


Eis o resumo (Memorare, Tubarão, v. 13, n. 1, jan./jun. 2026. ISSN: 2358-0593): 

Com o avanço das tecnologias digitais, humanos passam a interagir com Inteligências Artificiais — sistemas treinados para simular aspectos do raciocínio humano, como aprendizado, tomada de decisão, reconhecimento de padrões e linguagem natural. Nesse contexto, este estudo tem como objetivo analisar um episódio em que a Inteligência Artificial Copilot mobiliza estratégias textuais de reparação de “face” após cometer um erro de resposta. O enquadramento teórico baseia-se nos estudos pragmáticos da face social e nas abordagens de cortesia e descortesia. A análise sugere que a IA pode simular, por meio da escrita, comportamentos associados ao trabalho de face, como justificativa do erro, reformulação enunciativa, uso de humor e pedido de desculpas, contribuindo para mitigar danos interacionais e sustentar uma imagem de competência e colaboração.

As autoras são da área de linguística e isso faz o trabalho ser muito interessante. A figura é do texto e o termo "face" está explicado no artigo. Fonte: aqui

Apostas e saúde das famílias

 Parece que o problema não é só no Brasil:


As apostas esportivas estão prejudicando a saúde financeira das famílias mais vulneráveis , segundo um novo estudo que levanta uma questão política emergente.

O estudo , que se baseia em dados de transações de mais de 180 mil famílias, descobriu que as apostas esportivas não substituem as compras ou outros jogos de azar, como bilhetes de loteria ou idas ao cassino, mas sim os complementam, corroendo as economias e aumentando o endividamento. "Apostas arriscadas tomam o lugar de investimentos com valor esperado positivo", como comprar uma casa ou investir para a aposentadoria, afirma o estudo. (Uma parcela considerável de apostadores, segundo o relatório, afirma que vê as apostas como uma estratégia de investimento.)

O volume mensal de negociações na Kalshi e na Polymarket, em grande parte em apostas esportivas, saltou de US$ 2 bilhões no início de 2025 para quase US$ 50 bilhões em junho . Os efeitos negativos começam a aparecer. Pesquisadores do Fed de Nova York atribuíram o aumento da inadimplência em empréstimos ao consumidor à legalização dos esportes. Um estudo separado constatou que, para cada dólar apostado em esportes, o investimento líquido em ações e outros instrumentos financeiros caiu pouco mais de dois dólares, sugerindo que os consumidores estão desperdiçando dinheiro que poderia ser usado para construir patrimônio a longo prazo.


Caixa do Google

A Alphabet está gastando como se não houvesse amanhã, e isso está deixando os acionistas apavorados.


Suas ações caíram 7% depois que a empresa aumentou seus gastos com inteligência artificial pela terceira vez neste ano, para US$ 205 bilhões. Seu fluxo de caixa livre tornou-se negativo pela primeira vez em seus 22 anos como empresa de capital aberto, e a empresa não recomprou nenhuma ação pelo segundo trimestre consecutivo. Além disso, há uma oferta pública de ações pendente de US$ 40 bilhões, o que pressionará ainda mais o preço das ações. A diretora financeira, Anat Ashkenazi, afirmou que o investimento de capital da empresa em 2027 aumentará significativamente e “continuará a pressionar” os lucros.

O fato de o Google — talvez o hiperescalador mais bem posicionado para continuar investindo, dados seus lucrativos negócios de publicidade e nuvem — estar sendo penalizado demonstra o crescente ceticismo dos investidores quanto ao retorno de todo o investimento em IA. As empresas de tecnologia sem as fontes de receita do Google ficarão em uma situação ainda mais frágil, o que explica por que a Meta está se apressando para lançar seu próprio negócio de nuvem .

Fonte: Semafor. Grifo meu. 

Copa e mercado de ações

Apostar em quem vai ganhar os jogos da Copa do Mundo não é a única maneira de apostar no torneio. A volatilidade do mercado de ações em índices específicos de cada país tende a disparar após os jogos de suas seleções nacionais, de acordo com uma nova análise da empresa de modelagem de dados Polybridge. O mercado de ações de um país fica cerca de 15% mais volátil no dia seguinte a uma partida da seleção nacional na Copa do Mundo e permanece assim por cerca de uma semana, segundo dados que remontam a 1998. Os preços tinham a mesma probabilidade de subir ou cair, mas oscilavam muito mais — lucros que poderiam ser obtidos com apostas na volatilidade de índices, por exemplo, no Brasil e na Alemanha.


“Não podemos dizer exatamente o porquê, mas a melhor hipótese é o aumento da atenção”, disse Kiran Karra, engenheiro de pesquisa da Polybridge, à Semafor. Isso explicaria outra descoberta da empresa: um aumento nas exportações específicas do país após uma boa campanha no torneio. (A Polybridge prevê um aumento de 2,7% no turismo para Cabo Verde no próximo ano.)

Ou talvez seja o contrário: os investidores de ressaca demoram mais a perceber as oportunidades.

Fonte Semafor

O novo mundo das pesquisas na internet


O Google sempre defendeu uma internet aberta, onde qualquer pessoa tem a chance de ser descoberta. Mas suas novas ferramentas de inteligência artificial ameaçam desmantelar essa visão.

Tradicionalmente, o site direcionava os usuários para outros sites por meio dos links retornados em resposta às suas buscas. Mas o modo de IA da empresa, que resume o conhecimento coletivo da web em resposta à pergunta de um usuário, tem conseguido mantê-los em seu próprio site por mais tempo do que nunca. Reportagem de Kate Conger para o The Times.

Os usuários estão digitando consultas três vezes mais longas do que as perguntas com muitas palavras-chave que faziam nas buscas tradicionais, afirmou o Google em sua conferência para desenvolvedores em maio. As pessoas estão passando de um a nove minutos a mais no Modo IA do que nas buscas tradicionais do Google, de acordo com três estudos de pesquisadores compilados pelo The New York Times. Um estudo de outubro da Growth Memo, um boletim informativo focado em buscas e marketing, descobriu que, em cerca de 75% das sessões, os usuários nunca saíram do Modo IA para navegar na web.

Para editoras, empresas, bancos e outras organizações que dependiam do Google para direcionar seus bilhões de usuários aos seus sites, o impacto tem sido inegável, à medida que a empresa incorpora cada vez mais inteligência artificial (IA) às buscas. Os usuários do Google não abandonam mais a plataforma após uma pesquisa e simplesmente leem as respostas geradas por IA, o que significa que menos pessoas acessam seus sites e o tráfego de busca diminuiu, afirmaram especialistas.

O Google adicionou alguns recursos para guiar os usuários pela internet em geral. Mas parte do problema é que muitos usuários não são mais humanos. Cada vez mais, as buscas são realizadas por chatbots com inteligência artificial, de acordo com a Cloudflare, uma empresa de segurança na web.

Os vencedores da Copa do Mundo


A vitória da Espanha por 1 a 0 sobre a Argentina na prorrogação da Copa do Mundo foi um exemplo de elegante trabalho em equipe e quase perfeição técnica. Também coroou um enorme sucesso econômico.

Com o fim do torneio, o presidente da FIFA, Gianni Infantino , afirmou que a organização esperava arrecadar US$ 15 bilhões com a Copa do Mundo, bem acima das projeções anteriores de US$ 11 bilhões.

Houve outros grandes vencedores:

  • Emissoras de televisão. A primeira Copa do Mundo realizada (em parte) nos EUA desde 1994 bateu recordes de audiência (e isso antes da final repleta de estrelas — Tom Cruise ! BTS ! Madonna !). Os jogos das semifinais tiveram uma média de mais de 25 milhões de telespectadores combinados na Fox e na Telemundo, um aumento de mais de 130% para ambas as emissoras em relação à Copa do Mundo de 2022.
  • Mercados de previsão. A Kalshi adicionou três milhões de novos usuários durante o torneio, e mais de US$ 1,2 bilhão foram apostados no mercado para prever o vencedor da Copa do Mundo, um recorde para um único mercado.
  • A seleção espanhola de futebol, La Roja, receberá US$ 51 milhões pela vitória, enquanto a Argentina receberá US$ 34 milhões pelo segundo lugar, parte de um total recorde de US$ 871 milhões em prêmios distribuídos entre as 48 equipes participantes . (A Receita Federal dos EUA receberá uma parte dos prêmios recebidos nos Estados Unidos).

As enormes receitas podem ter alterado o torneio para sempre. Muitos torcedores reclamaram das mudanças nesta Copa do Mundo , incluindo a precificação dinâmica dos ingressos e as pausas para hidratação que abriram mais espaço para anúncios na TV.

Mas, dado o aumento da receita, as modificações parecem destinadas a permanecer.

Os anfitriões querem que a FIFA pague mais. A governadora Mikie Sherrill , de Nova Jersey, estado que sediou a final, reclamou que a organização não contribuiu para a infraestrutura necessária. "Eles estão faturando US$ 11 bilhões e agora estão tentando vender grama", disse ela ao Politico, "e estão tentando não pagar suas contas ."

Em outras notícias do futebol: a Telemundo, rede de televisão em espanhol pertencente à Comcast, fechou um acordo de três anos pelos direitos de transmissão em espanhol nos Estados Unidos das competições de futebol masculino organizadas pela federação europeia de futebol, incluindo o torneio da Liga dos Campeões.

O texto do NY Times. No Brasil, a CazéTV, do BTG, venceu a batalha do audiência. As empresas de apostas talvez tenham perdido, já que muitas pessoas começaram a preocupar com o efeito sobre a saúde financeira dos apostadores. 

Mudança na ciência


“Se você analisar a publicação de Watson e Crick na revista Nature em 1953, verá que ela tem menos de uma página e se parece mais com o início de uma proposta de pesquisa do que com um artigo… Não há a menor possibilidade de que isso fosse publicado da mesma forma, com apenas dois autores, hoje em dia.”

Os dados do Nature Index mostram que o número de artigos escritos por pequenas equipes tem diminuído na última década. Essa mudança reflete a complexidade esperada nas publicações modernas, que podem exigir experimentação extensiva e coleta de dados, afirma o químico David Leigh. 

(Da newsletter da Nature)

Fico imaginando as dificuldades futuras dos comitês de premiação. 

Apostas em mercado de previsão

A cada dia enfrentamos questões éticas no nosso trabalho. E a evolução tecnológica atualiza alguns desses dilemas. Eis um caso interessante que está surgindo agora – e que felizmente não afeta as empresas brasileiras (ironia): os empregados devem ter permissão dos patrões para fazerem apostas no mercado de previsão?

Quando o funcionário não lida com informações estratégicas, talvez isso nem tenha passado pela discussão dos gestores de recursos humanos das empresas. Mas se o funcionário trabalha com informações sensíveis? Parece que grandes empresas estão dizendo que sim. E isso inclui instituições financeiras, como o Goldman Sachs, que já impôs limites para seus funcionários apostarem no mercado de previsão, informaram o NY Times e a Bloomberg. A exceção são as apostas em esportes e entretenimento. E o problema tem se estendido para outras empresas.

Recentemente, um funcionário do Google e um soldado do exército utilizaram informação sigilosa para fazerem apostas sobre a operação de captura de Maduro na Venezuela. É também interessante que algumas empresas de investimento estão usando o mercado de previsão para operações financeiras, como hedge.

A ironia no primeiro parágrafo é que o mercado de previsão no Brasil é ilegal. Já comentamos isso antes. Mas fazendo uma adaptação da reflexão para o nosso país, uma empresa poderia exigir que os empregados solicitassem permissão para apostar em uma bet?

Se uma empresa já proíbe que um funcionário negocie ações com base em informação privilegiada, por que não proibiria que ele apostasse, num mercado de previsão, sobre o resultado de uma reunião do Copom, o desfecho de uma negociação sigilosa ou até um evento geopolítico do qual tenha conhecimento antecipado por sua função? A governança corporativa talvez precise, em breve, tratar o mercado de previsão como mais uma fronteira

15 julho 2026

Mais um produto da OpenAI é desativado


A empresa Open AI anunciou, em outubro de 2025, um navegador de IA, que ela chamou de Atlas. A empresa do ChatGPT imaginava que desbancaria o reinado do Chrome. O novo navegador poderia reservar passagens aéreas ou fazer compras e seu anúncio, pelos executivos da empresa, parecia um produto revolucionário. 

Provavelmente o leitor nunca soube da existência do Atlas. O produto foi um fracasso, que inclui falahs de segurança e lentidão em fazer as tarefas: o navegador levou dez minutos para incluir três itens no carrinho de compras da Amazon, segundo o The Verge.  

Agora chegou a hora do reconhecimento do fracasso. A empresa já divulgou que irá descontinuar o Atlas em outubro. 

Fisco em clientes?


Do Boring is Optional

Quando a Receita Federal [inglesa] decidiu, em 1992, que os contribuintes deveriam ser conhecidos como "clientes" , o Parlamento reagiu exatamente como se esperava.

Um colega questionou se os clientes agora poderiam comparar preços entre diferentes repartições fiscais para encontrar uma opção mais vantajosa. Outro perguntou se os clientes insatisfeitos poderiam simplesmente levar seus negócios para outro lugar. Um terceiro queria saber se, seguindo a melhor tradição do varejo britânico, o cliente teria sempre razão — e, caso contrário, se o pagamento poderia ser retido até que o serviço melhorasse.

As coisas só melhoraram quando alguém sugeriu que qualquer pessoa que deixasse a "base de clientes" da Receita Federal poderia em breve se tornar cliente das Prisões de Sua Majestade.

Desenho aqui

A Fala do gestor


Com base na literatura que demonstra que a disfluência (disfluency) na fala transmite informações sobre a incerteza do falante, criamos uma medida de incerteza da empresa com base na disfluência da fala dos gestores em teleconferências sobre resultados e examinamos seu impacto sobre os analistas. Mostramos que, quando os gestores exibem maior disfluência (que denominamos “incerteza acústica gerencial”) em suas respostas às perguntas dos analistas, a dispersão das previsões dos analistas aumenta, mesmo após considerar as características da linguagem utilizada por gestores e analistas. Além disso, constatamos que a associação positiva entre incerteza acústica e dispersão das previsões dos analistas se concentra em teleconferências nas quais as respostas dos gestores demonstram maior especificidade e informações prospectivas, e em empresas com notícias de lucros mais negativas e ambientes informacionais mais fracos. Nossos resultados são consistentes com a incerteza expressa nas características acústicas da fala gerencial que afeta os participantes do mercado e sugerem que nossa medida captura um aspecto único da incerteza da empresa.

The sound of uncertainty: Examining managerial acoustic uncertainty in conference calls - Daniela De la Parra e John Gallemore. Imagem aqui

14 julho 2026

Encontro de Reguladores

O relatório do International Forum of Accounting Standard Setters (IFASS), um tipo de encontro de reguladores, que ocorreu na Austrália, no final de abril de 2026, está disponível aqui. O Brasil estava presente através de um representante do Conselho Federal de Contabilidade. 

Entre os temas tratados os relatórios ambientais, a questão do custo e a contabilidade do terceiro setor, através do INPRF. Sobre a escalabilidade:

Esta sessão tratou de escalabilidade e proporcionalidade no reporte, com foco em como os requisitos de divulgação podem permanecer úteis para a tomada de decisão, ao mesmo tempo em que acomodam diferenças de porte, recursos e capacidade. A discussão abordou estruturas em camadas, regimes de divulgação reduzida e mecanismos de proporcionalidade como formas de administrar a carga de reporte sem comprometer a transparência. Os participantes observaram que as restrições de recursos afetam não apenas os preparadores, mas também os emissores de normas e reguladores, reforçando a importância da colaboração, de ferramentas compartilhadas e de iniciativas de capacitação. O diálogo destacou a necessidade de sistemas de reporte que apoiem a consistência global, permitindo ao mesmo tempo aplicação flexível, de modo a assegurar que o reporte de alta qualidade continue sendo viável em diferentes contextos econômicos e institucionais.

Rir é o melhor remédio


 Maiores passivos

12 julho 2026

Bíblia perversa


Falando em livros, eis uma história interessante, também via Boing-Boing:

A Bíblia Perversa é uma reimpressão de 1631 da Bíblia do Rei Jaime que, acidentalmente, ordenava aos seus leitores que pecassem. Ao compor os Dez Mandamentos, os impressores reais de Londres omitiram a palavra "não" de Êxodo 20:14, de modo que o Sétimo Mandamento passou a ser "Cometerás adultério".

Não foi o único deslize. Deuteronômio acabou elogiando "sua glória e seu grande traseiro" em vez de sua grandeza. O duplo erro foi tão grave que alguns historiadores suspeitam que uma gráfica rival tenha sabotado o trabalho para revogar a lucrativa licença bíblica da dupla; em algumas cópias sobreviventes, uma mancha de tinta está exatamente onde o "n" ausente deveria estar, como se alguém tivesse tentado escondê-lo.

Os impressores foram convocados à Câmara Estrelada, multados em 300 libras e tiveram sua licença cassada, e a maior parte da tiragem foi queimada. Cerca de 25 exemplares sobreviveram, muito valorizados por colecionadores — um deles foi vendido na Sotheby's em 2018 por US$ 56.250.

Verbaprima

O site VerbaPrima é bem simples: apresenta a primeira frase de livros famosos. Por exemplo:

A primeira frase da Bíblia judaica apareceu enquanto fazia essa postagem. Nem sempre é somente uma frase, como é o caso de Camus:

Dois problemas: está em língua inglesa e há uma predominância por livros da cultura ocidental. Dica daqui.


Custo: uma barreira na expansão da IA?

A notícia


Nos últimos anos, funcionários de praticamente todos os setores imagináveis ​​foram obrigados a treinar ou trabalhar com Inteligência Artificial . Muitas vezes, a parceria com um Modelo de Linguagem Complexo levou à demissão do profissional com quem ele era associado: por que manter um humano na folha de pagamento quando uma máquina pode fazer o trabalho por menos dinheiro? A menos que você estivesse muito, muito enganado sobre o custo de manutenção de uma IA. (...) 

De acordo com conversas vazadas do Slack, painéis internos e outros materiais obtidos pela 404 Media de meia dúzia de empresas, incluindo Atlassian, Adobe e Amazon, a limitação de largura de banda é real:

Empresas dos setores de tecnologia, entretenimento e bancário estão restringindo o uso de IA por seus funcionários, implorando que optem por modelos menos potentes para evitar o aumento exorbitante dos custos. Em um caso específico, os gastos com IA triplicaram, chegando a mais de US$ 15 milhões por mês. (...) 

E como as empresas que desenvolveram a IA precisam de devolver os investimentos para os financiadores, sob a forma de juros e dividendos, os preços podem aumentar. Talvez o modelo que combine acesso livre até um limite e pago após precise ser ajustado. 

11 julho 2026

Usando IA para realizar prova

Roberto Serrano, professor de economia da Universidade Brown, aplicou uma prova parcial para ser feita em casa, e parece que a maioria dos alunos usou inteligência artificial para realizá-la. Desconfiado de fraude, Serrano exigiu que a prova final fosse feita presencialmente. Para o Inside Higher Ed, Emma Whitford mapeou a discrepância entre as altas notas da prova parcial e as notas finais, muito mais baixas:


Fonte: aqui

Padrão próximo ao que tenho encontrado nas minhas aulas. Acredito que o futuro é a prova presencial. 

02 julho 2026

Regressão linear imprópria

A navalha de Ockham afirma que a simplicidade é melhor que a busca da precisão a todo custo. Quanto mais simples, melhor. Um pesquisador, Robyn Dawes, sugeriu um método denominado regressão linear “imprópria”.


A técnica de regressão é amplamente aplicada na ciência e utiliza cálculos para representar uma realidade. Se tenho dois conjuntos de dados, uso uma planilha eletrônica ou um software estatístico, e pode ser feito o cálculo da relação entre as variáveis. A coisa é mais complexa, pois é necessário fazer um conjunto de testes para certificar que as suposições da técnica foram atendidas. Mas Dawes despreza isso e propõe que os pesos sejam escolhidos arbitrariamente.

Tim Harford dá um exemplo bastante didático: em uma conferência, Dawes foi desafiado a construir um modelo para prever se um casal é feliz. Ele propôs uma explicação sem rodar nenhum software, baseada em duas variáveis: se a quantidade de sexo fosse maior que a de brigas, o casal seria feliz; caso contrário, quando as brigas excedessem o sexo, o casal seria infeliz. É algo sensato e talvez não impróprio, pois não depende de um estudo científico. Parece que os dados coletados confirmam a hipótese.

Duas questões podem surgir da proposta. Primeiro, será que o modelo de regressão linear imprópria funciona? Em outras palavras, quando tomo um conjunto de dados, a previsão é próxima de uma previsão realizada por um modelo de regressão? Se o modelo funciona, qual é a razão para funcionar? Admitindo uma resposta afirmativa para a primeira questão, um modelo impróprio não é tão arbitrário assim: afinal, é razoável imaginar que há uma relação entre sexo, brigas e felicidade.

Dawes não foi o primeiro, nem será o último, a estudar regras simples. Essas regras são tão comuns que os cientistas deram um nome para elas: heurísticas.