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26 fevereiro 2026

Mudança climática estão se tornando passivo


Um texto da Forbes 

A mudança climática figurou por muito tempo nos registros de risco corporativo como uma preocupação futura. Em 2026, esse enquadramento já não se sustenta. Pontos cegos climáticos passam, cada vez mais, a se materializar como passivos mensuráveis no balanço. Eles já estão remodelando valores de ativos, afetando a cobertura de seguros e gerando impactos de longo prazo na estabilidade financeira.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), riscos físicos do clima, como calor extremo, enchentes e tempestades, já provocam perdas econômicas diretas em diversos setores, sobretudo onde infraestrutura e cadeias de suprimentos foram concebidas para um clima mais estável. Esses impactos ocorrem em escala suficiente para afetar resultados, investimentos em capital e a qualidade de crédito das empresas.

Os mercados de seguros oferecem um dos sinais mais claros. De acordo com a S&P Global, seguradoras elevaram prêmios, reduziram coberturas ou se retiraram totalmente de regiões de alto risco diante do aumento das perdas relacionadas ao clima. Segundo a Munich Re, 2025 deixou claro como a mudança climática está ampliando riscos humanos, ambientais e financeiros no mundo.

Desastres naturais globais causaram cerca de US$ 224 bilhões em perdas, com US$ 108 bilhões cobertos por seguros, novamente acima do patamar de US$ 100 bilhões em perdas seguradas, mesmo com perdas totais abaixo da média dos últimos dez anos. As fatalidades chegaram a 17.200, número significativamente maior que em 2024.

As perdas foram dominadas por incêndios florestais, enchentes e tempestades severas, especialmente na América do Norte, enquanto o furacão Melissa devastou áreas da Jamaica e de outras partes do Caribe. Ásia-Pacífico e África apresentaram menor penetração de seguros, deixando a maior parte das perdas sem cobertura.

Cientistas citados pela Munich Re observam que 2025 esteve entre os anos mais quentes já registrados, reforçando que extremos impulsionados pelo clima estão se tornando mais severos e frequentes. Quando o seguro recua, os riscos retornam a famílias, empresas e governos, muitas vezes recaindo diretamente sobre os balanços.

Onde pontos cegos climáticos viram exposição financeira

Pontos cegos climáticos costumam surgir quando as empresas subestimam a exposição física, confiam demais em parâmetros históricos ou não submetem ativos e cadeias de suprimentos a testes de estresse frente a cenários futuros.

Essas lacunas geralmente ficam fora dos modelos financeiros tradicionais, o que faz com que os riscos permaneçam sem preço até emergirem de forma abrupta como custos operacionais mais altos, baixas contábeis de ativos ou perda de receita. Instalações expostas a inundações que nunca foram redesenhadas, operações sensíveis ao calor que perdem produtividade ou redes logísticas dependentes de regiões vulneráveis ao clima podem converter riscos ambientais ignorados em pressão financeira imediata.

Uma vez revelados, esses pontos cegos passam rapidamente de notas explicativas a linhas do demonstrativo, reduzindo valores de ativos, elevando exigências de capital e enfraquecendo balanços de maneira difícil e cara de reverter.

Como as empresas estão fechando pontos cegos climáticos

Empresas que conseguem fechar pontos cegos climáticos estão migrando de uma gestão reativa de riscos para decisões orientadas ao futuro. Em vez de depender de padrões climáticos históricos, elas submetem ativos, cadeias de suprimentos e planos de capital a testes de estresse com base em condições futuras, permitindo que vulnerabilidades apareçam antes que as perdas ocorram.

Essa abordagem ajuda a evitar baixas súbitas de ativos, lacunas de seguro e interrupções operacionais que, de outra forma, atingiriam o balanço sem aviso. Na prática, isso envolve redesenhar infraestrutura para patamares mais altos de calor e inundação, diversificar fornecedores para fora de regiões expostas ao clima e alinhar investimentos de capital a trajetórias de transição críveis.

Quando o risco climático é incorporado à governança, à estratégia e ao planejamento financeiro, a incerteza se torna administrável. As evidências indicam, de forma crescente, que empresas que antecipam impactos climáticos protegem melhor o valor de seus ativos, estabilizam fluxos de caixa e evitam surpresas onerosas que transformam riscos ignorados em passivos financeiros. 

A avaliação de ativos é outro ponto de pressão. Desastres relacionados ao clima podem reduzir o PIB nacional em economias altamente expostas, enquanto choques repetidos corroem o valor da infraestrutura e o espaço fiscal.

Para as empresas, isso se traduz em baixas de ativos, redução da vida útil e aumento dos custos de manutenção e adaptação, sobretudo nos setores de energia, imobiliário, transporte e agricultura. A postergação de ações para reduzir emissões eleva a probabilidade de mudanças abruptas de política no futuro, aumentando o risco de ativos encalhados em setores dependentes de combustíveis fósseis. Infraestruturas intensivas em carbono construídas hoje podem enfrentar baixas aceleradas à medida que regulações se endurecem e mercados mudam.

De forma crítica, empresas que não identificam nem divulgam riscos materiais associados à mudança climática enfrentarão escrutínio crescente de investidores, credores e reguladores. Pontos cegos climáticos sinalizam, cada vez mais, falhas de governança, não incerteza.

Organizações que não integram o risco climático à estratégia, ao planejamento de capital e às divulgações estão despreparadas e precificando mal o risco. Ignorar a realidade climática deixou de ser neutro. É uma decisão de balanço, e os mercados começam a penalizá-la.

 É interessante que os reguladores evitaram levar para o balanço a questão climática, mas a mesma está chegando sob a forma de passivo - como o texto enfatiza, mas também sob a forma de baixa de ativo. Mas ao contrário dos reguladores, que parecem desejar que todas as empresas reconheçam a questão climática, o foco aqui é efeito direto. 

Talvez

Coisas ruins acontecem quando você combina a natureza autoafirmadora das crenças com o hábito de consumir grandes quantidades de conteúdo moralmente carregado.

Muitas pessoas fazem da rotina diária consumir enormes volumes de conteúdo altamente partidário sobre “o que está acontecendo” no “mundo”. Os entusiastas desse hobby chamam isso de “manter-se informado” e insistem que não é apenas um hábito pessoal, mas um dever cívico.

Esse conteúdo consiste em novas crenças (“notícias”, em resumo) sobre o que aconteceu hoje ou ontem, apresentadas com um tom autoritário e pouca ambiguidade moral. Identificam vilões claros e implicações igualmente claras. Frequentemente trazem instruções de especialistas selecionados a dedo sobre como pessoas inteligentes deveriam pensar a respeito.

O único filtro do lado do consumidor é se essas novas crenças parecem combinar com as já existentes. Geralmente combinam, porque a maioria dessas crenças anteriores foi adquirida da mesma forma. A moral de cada notícia é: “Você está certo de novo!”

Um efeito colateral crônico desse hobby é o ódio moralmente justificado contra pessoas que não confirmam sua sensação de estar certo outra vez — mesmo quando as questões são reconhecidamente complexas. Como pode aquele sujeito não ter apenas notas verdadeiras, como eu tenho?! Ele acredita em algo que não é verdade! Que pessoa horrível!

Atores políticos, que prosperam com narrativas simples e ódio entre grupos, incentivam esse pior hobby.

Então, o que fazemos, considerando que todos nós carregamos muitas notas falsas — e que todas parecem absolutamente reais?

Além de fazer pausas frequentes e longas do pior hobby de todos, uma defesa poderosa contra o problema do “eu sou a exceção” foi sugerida pelo escritor excêntrico Robert Anton Wilson.

Ele recomendava acrescentar um “talvez” habitual às suas afirmações internas e externas, mesmo quando (ou especialmente quando) você acha que isso não é necessário.

> Essa política é exatamente o que precisamos. Talvez.
> Eu não consigo fazer nada à noite. Talvez.
> Quem acredita em [x] é um idiota. Talvez.
> Não há boa razão para votar nessa pessoa. Talvez.
> Astrologia é pura bobagem. Talvez.

Esse “talvez” indiscriminado não diz quais crenças estão certas. Mas lembra que você não possui apenas crenças verdadeiras — e que as crenças equivocadas sempre parecem corretas.

Isso também torna sua afirmação mais aceitável para a maioria das pessoas — e provavelmente mais verdadeira.

Mais importante ainda, isso enfraquece o ódio e o fanatismo. É difícil imaginar a violência “justificada” se sustentando na presença de qualquer quantidade de “talvez”. 

O texto completo está aqui. Mesmo tendo simpatia pelo texto e pela postura, sinto que como professor os alunos não querem "talvez". Daí o fato de ser um desafio, para muitos, encarar uma pós-graduação, um lugar cheio de talvez, com pouca certeza. E por isso a popularidade dos docentes que ensinam de maneira assertiva e com tanta convicção. 

Já disse muitas vezes que essa é a explicação pela qual um professor que decide fazer uma pós-graduação perde "qualidade" na sua aula, pois perde certeza e ganha o "acho".  

Usuário, nota e IMDb

Na newsletter de hoje, Stephen Follows analisa alguns fatos interessantes sobre a nota do IMDb. O site, de propriedade da Amazon, é uma importante fonte de informação sobre filmes e séries. Follows começa seu texto com um fato recente: um episódio de O Cavaleiro dos Sete Reinos alcançou a nota máxima, da mesma forma que ocorreu com Ozymandias, de Breaking Bad. Rapidamente, os fãs de uma série começaram uma guerra para rebaixar a nota da outra série, com a nota 1. 

O resultado da batalha foi uma distribuição de notas extremas, como já tinha acontecido anteriormente diversas vezes. Follows analisou 73 mil filmes, com 85 milhões de notas no total. Uma das conclusões que ele chegou é que 82% dos votos foram dados por homens e 45% por pessoas entre 30 e 44 anos. Uma coisa que aprendi também é que a nota não é obtida por uma média das notas, mas também reflete coisas como a confiança do votante. 

No fundo, o IMDb tem que lidar com uma votação expressiva para baixo - como é o caso de Pequena Sereia, para o alto ou uma batalha de votos. Na análise de Follows, 10% dos filmes que estão no site estão sofrendo pressões extremas nas bordas. E esse fato está presente especialmente em filmes de guerra, obras com pessoas que os votantes amam ou odeiam, entre outras. 

A análise feita aqui é útil para entendermos as notas atribuídas para hotéis, restaurantes e outros estabelecimentos. Na semana passada fui consultar o Google Maps buscando o endereço do Conselho Regional de Contabilidade. E, sem querer, olhei a nota do CRC e o ódio dos usuários: nota de 2,7 de 88 usuários, muitos deles reclamando que não eram atendidos pelo telefone. Parece ser uma pista para a melhoria no atendimento. Mas certamente, a anuidade de 500 reais pode ser uma boa explicação aqui também.  

Papa pede que os sacerdotes não usem IA para escrever homilias


O Papa Leão XIV pediu aos sacerdotes que não usem inteligência artificial (IA) para escrever suas homilias, argumentando que isso pode enfraquecer a prática do pensamento e da expressão da fé, que são inerentemente humanas. Ele disse que homilias são mais do que textos e que um chatbot nunca poderá “compartilhar fé” de verdade. Leão XIV também alertou contra a busca de popularidade em redes sociais e o uso acrítico de tecnologia que substitua a reflexão pessoal e espiritual. A posição pontifícia destaca o desafio de equilibrar IA com valores humanos e religiosos num mundo cada vez mais digital. 

25 fevereiro 2026

Matemática (e contabilidade) na vida diária


Um texto do Sketchplanations mostra que a matemática não é apenas teoria abstrata, mas um instrumento prático no cotidiano, presente em situações como orçamento pessoal, compras, dividir a conta, planejar viagens, comprar uma casa, ajustar receitas ou medir móveis, e também em decisões financeiras e interpretação de estatísticas. O texto dá vários exemplos de uso da matemática na vida diária. 

Mas lembrando que as partidas dobradas estava no meio de um livro de matemática e que o desenvolvimento dos números esteve associado aos primeiros registros contábeis da antiguidade, nós podemos ver que alguns dos exemplos citados no texto são também contabilidade. Eis a citação e em itálico os casos contábeis:

Viagem e tempo

  • Comparar os custos relativos de férias

  • Decidir a forma mais barata ou mais vantajosa de chegar a algum lugar, equilibrando tempo de viagem, facilidade, custo e conforto

  • Estimar tempos de deslocamento para saber quando você pode encontrar alguém

  • Converter unidades durante viagens (por exemplo, milhas e quilômetros)

  • Manipular datas e ajustar-se a diferentes fusos horários

Casa e faça-você-mesmo (DIY)

  • Encaixar móveis em um cômodo ou verificar se um sofá passa pela escada

  • Estimar quantos azulejos são necessários para um banheiro

  • Calcular quanta tinta é necessária para uma cerca ou parede

Comida e compartilhamento

  • Estimar o custo das compras e comparar custo-benefício (este é leve 2 pague 1, mas aquele é mais barato por 100g…)

  • Dividir a conta em um restaurante

  • Adaptar receitas para diferentes números de pessoas

  • Estimar quantidades de comida para uma festa ou acampamento

  • Converter pesos e medidas — onças para gramas, Fahrenheit para Celsius

  • O que gosto de chamar de “matemática da baguete”: dividir três baguetes entre cinco pessoas mantendo as maiores partes intactas

Dinheiro e finanças

  • Entender taxas de juros e de retorno em poupanças e investimentos

  • Comparar apólices de seguro

  • Calcular taxas de juros e parcelas mensais de um financiamento imobiliário

  • Financiar um carro e comparar propostas

  • Calcular gorjetas

Mídia e sociedade

  • Interpretar estatísticas em manchetes, anúncios publicitários ou informações sobre medicamentos

  • Compreender a matemática por trás de alegações políticas, argumentos e eleições

Término da construção da Basílica Sagrada Família


A Basílica da Sagrada Família (Basílica i Temple Expiatori de la Sagrada Família) é um templo católico em construção no bairro do Eixample, em Barcelona, Espanha. Projetada pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí, a obra começou em 1882 sob outro arquiteto e, a partir de 1883, passou às mãos de Gaudí, que redefiniu o projeto com uma combinação única de estilos gótico, Art Nouveau e Modernista. Gaudí dedicou grande parte de sua vida ao projeto e está enterrado na cripta da basílica; quando morreu em 1926, menos de um quarto da construção estava concluído.

O templo foi construído quase inteiramente com doações privadas, enfrentou interrupções, inclusive durante a Guerra Civil Espanhola, e só ganhou ritmo mais acelerado no final do século XX graças a tecnologias modernas de projeto e fabricação de pedra. A basílica foi consagrada pelo Papa Bento XVI em 2010 e integrada ao Patrimônio Mundial da UNESCO.

Com 18 torres planejadas, a mais alta dedicada a Jesus Cristo atingiu 172,5 m em 2026, tornando a Sagrada Família a igreja mais alta do mundo. A obra é considerada uma das expressões arquitetônicas mais extraordinárias e simbólicas da história, refletindo a visão inovadora de Gaudí e atraindo milhões de visitantes anualmente. 

Com as torres finais sendo erguidas e detalhes interiores avançando, o fim da construção está finalmente próximo após mais de um século de esforço coletivo e inovação arquitetônica. A pergunta que não quer calar: qual o custo da construção? 

Deloitte cria uma entidade unificada para região EMEA


A Deloitte anunciou que irá criar uma entidade unificada para a região EMEA, consolidando 16 firmas participantes em mais de 80 países sob um único guarda-chuva operacional, com cerca de 6 000 parceiros e 132 000 empregados e receitas combinadas de aproximadamente €20 bilhões. 

A região EMEA compreende Europa, Oriente Médio e África. Muitas empresas multinacionais dividem o mundo, baseado nos fusos horários próximos, em Américas, EMEA e APAC (Ásia-Pacífico) 

A nova estrutura, que entrará em vigor em 1º de junho de 2026, visa fortalecer a colaboração transfronteiriça, facilitar investimentos em tecnologia (inclusive em IA) e responder melhor às necessidades de clientes multinacionais. Cada firma local manterá responsabilidade pelos seus serviços enquanto a entidade EMEA coordena estratégia regional. 

Riscos ambientais e remuneração do auditor


O resumo:

Este estudo investiga o impacto dos riscos ambientais sobre os honorários de auditoria, explorando a criação de tribunais ambientais na China como um choque exógeno. Utilizando uma amostra de empresas listadas na China, constatamos que os auditores cobram honorários significativamente mais elevados após a instalação de tribunais ambientais nas prefeituras onde seus clientes estão sediados. Esse efeito é atenuado quando as empresas clientes possuem conexões políticas ou quando o governo local está sob maior pressão em relação ao desenvolvimento econômico. Também identificamos riscos de litígio, riscos financeiros e riscos reputacionais como três canais principais que explicam o impacto dos riscos ambientais sobre os honorários de auditoria. Nossos principais resultados são amplificados para empresas auditadas por firmas Big 10 ou por auditores especializados em setores poluentes. Por fim, as firmas de auditoria alocam mais especialistas ambientais a clientes expostos a maiores riscos ambientais. Em conjunto, os resultados sugerem que os riscos ambientais são incorporados na precificação dos honorários de auditoria. 

Link aqui 

Kahneman e colaboração adversarial


Uma vez, ao ler uma obra de Gerd Gigerenzer, era possível perceber que o alemão não gostava muito da obra de Kahneman e Tversky. Foi uma surpresa ver, no blog de Al Roth, palavras elogiosas de Gigerenzer sobre os israelense: 

Permita-me concluir com o que pode ser o legado mais importante de Kahneman: sua disposição de se engajar no que ele chamou de “colaboração adversarial”. É difícil superestimar o desgaste emocional que isso lhe causava. Sua abertura ao debate começou com as três palestras conjuntas que fizemos no início da década de 1990 e continuou por meio das colaborações adversariais que ele iniciou com vários de seus críticos.

“Aprender a separar o pessoal do intelectual — debater uma questão sem presumir intenções maliciosas do outro lado — é uma das conquistas mais virtuosas e difíceis na ciência. A história da ciência está repleta de relatos daqueles que falharam em fazê-lo. Matemáticos do Renascimento chegaram a duelar por soluções de equações cúbicas, e Newton famosamente partiu o coração de Leibniz em sua disputa sobre quem inventou o cálculo. O fato de que rivais tenham eventualmente aprendido a dialogar com respeito, e até a cooperar, é um desenvolvimento relativamente recente nas ciências (Daston 2023).” 

O original está em  GERD GIGERENZER    Erasmus Journal for Philosophy and Economics,Volume 18, Issue 1,Summer 2025, pp. 28–61https://doi.org/10.23941/ejpe.v18i1.1075

24 fevereiro 2026

Tendências de pesquisa em contabilidade verde

 


Desafios ambientais globais, incluindo mudança climática, escassez de água e perda de biodiversidade, representam riscos significativos tanto para a sociedade quanto para os ecossistemas. A contabilidade verde oferece uma abordagem abrangente para promover a sustentabilidade nas dimensões econômica, ambiental e social. No entanto, ainda não existe um arcabouço teórico unificado para a pesquisa em contabilidade verde. Este estudo analisou sistematicamente 833 artigos da base de dados Scopus para suprir essa lacuna. Foi desenvolvido um arcabouço refinado de responsabilidade ambiental e contabilidade sustentável com o objetivo de aprimorar as teorias existentes. A análise destaca fortes conexões entre as tendências de pesquisa em contabilidade verde, identifica áreas-chave e temas emergentes, e confirma metodologias amplamente aceitas. Além disso, os resultados validam a análise bibliométrica dentro do arcabouço construído. O estudo oferece uma base teórica sólida para o avanço da teoria da contabilidade verde, incentivando a inovação metodológica e aprimorando aplicações práticas. Ao fortalecer sua fundamentação teórica, a contabilidade verde pode desempenhar um papel crucial na consolidação de práticas empresariais sustentáveis e no desenvolvimento de políticas públicas.
 

Fonte: Bibliometric insights into green accounting research: analysing trends, impact, and theoretical foundations 

O melhor livro já escrito


Os leitores do site de livros Goodreads elegeram Jogos Vorazes, de Suzanne Collins, como o melhor livro já escrito. Como a escolha foi feita por votação, a escolha não significa, necessariamente, qualidade na escrita de Collins, mas o fato da obra ser agradável na sua leitura. (Como não li a obra, essa é uma suposição minha)

O livro foi lançado em 2008 e ficou mais de 100 semanas na lista do jornal New York Times. 

Hernando de Soto é o novo primeiro ministro do Peru


O novo primeiro ministro do Peru é um conhecido dos leitores do blog. Hernando de Soto - que referimos no passado como Hernan - é um economista famoso por sua tese sobre os direitos de propriedade. 

Aqui um comentário sobre esse tema e crise. Aqui sobre a importância de medir. Também falamos dele em uma postagem sobre corrupção e pobreza. E outra sobre mais mercado.

O verbete da Wikipedia em português é ruim, mas em inglês destaca bem suas contribuições. Há pelo menos dois livros traduzidos dele. 

Diamante não é para sempre


Durante décadas, essa empresa viveu um mundo de sonho: era quase monopólio de um produto que as pessoas compravam para demonstrar status e riqueza. Com isso, podia impor preços e controlar gostos.

Os últimos anos trouxeram um banho de realidade. O presente e o futuro não serão iguais aos anos dourados. Tudo isso em razão de uma série de fatores estratégicos e, especialmente, de uma mudança tecnológica.

Um diamante não é mais para sempre, e a De Beers está vivendo essa fase. Entre os fatores estratégicos, destaca-se a redução do mercado de luxo na China, além da situação da Índia, onde os diamantes são negociados e lapidados, que tem sofrido a pressão dos Estados Unidos. Mas o ponto crucial é uma inovação tecnológica que permitiu que a produção de pedras passe a ser feita em laboratório, com qualidade bastante aceitável.

No cenário atual, a situação exige a revisão dos valores que constam no balanço da Anglo American, que detém a unidade De Beers. Em termos contábeis, faz-se necessário que o teste de recuperabilidade reflita esse ambiente. E a Anglo American acaba de anunciar uma baixa de 2,3 bilhões de dólares, com consequência no resultado da empresa: prejuízo líquido de 3,7 bilhões.

Antes disso, a empresa buscou diversificação. Os negócios hoje estão voltados para o cobre e o ferro. Há também um plano de vender a De Beers a sócios, incluindo governos de dois países africanos.

OpenAI e a queima de caixa

 

Empresas em fase de crescimento geralmente captam recursos de financiamento, próprio e de terceiros, investem muito e não conseguem ter caixa das operações. Esse padrão já é bastante conhecido no mundo. Somente com a maturidade é que as empresas conseguem gerar caixa operacional. 

O gráfico mostra quatro empresas onde isso ocorreu: Uber, Tesla, Netflix e OpenAI. A informação é do fluxo de caixa livre, uma junção do caixa operacional com investimento. Esses valores precisam ser cobertos com captação de recursos ou fluxo de financiamento. Em vermelho, quando esse valor é negativo. No caso, a queima de caixa pode durar anos. 

Mas é notório, visualmente, que o volume de caixa queimado pela OpenAI é muito diferente do que ocorreu com as outras três empresas. E as estimativas são gigantescas. Segundo o The Information, as projeções para a empresa são de um queima de caixa de 218 bilhões de dólares entre 2026 e 2029 — cerca de 111 bilhões a mais do que as projeções internas da empresa feitas apenas dois trimestres atrás. Ou 23 vezes o que a Tesla queimou entre 2007 e 2018.

As apostas são elevadas, mas o fruto esperado pode ser bem maior. O produto base da empresa, o GPT, tem um crescimento muito mais rápido que o serviço de transporte, o veículo elétrico ou os filmes.  O valor corresponde ao PIB da Ucrânia, para se ter uma dimensão do que significa. 

23 fevereiro 2026

Uma grande surpresa em um tanque velho de guerra


A notícia é de 2017, mas voltou a circular como algo novo (aqui e aqui). Mas é um caso contábil interessante e desafiador.

Um britânico comprou no eBay um tanque de guerra do Iraque. Ao abrir o compartimento de combustível, ele encontrou cinco barras de ouro escondidas, com o valor estimado de 2 milhões de libras. O ouro foi entregue às autoridades britânicas para investigação. 

As barras de ouro correspondem a um ativo oculto. Ao comprar o tanque, o britânico comprou todo seu conteúdo, mas fica a dúvida se isso inclui o ouro.  Se o ouro for considerado do comprador, é um ganho, por ser algo inesperado. O custo de aquisição do tanque, que corresponde ao valor histórico, distancia do valor real. Há aqui uma discussão interessante entre preço histórico e preço justo. 

Mercado de aposta expande para questões geopolíticas


O mercado de apostas está crescendo e incorporando temas geopolíticos, constatou um texto da Rest of World. A principal plataforma de apostas, a Polymarket, mostra isso, conforme o gráfico da postagem. Se inicialmente era interessante consultar o site para saber a chance do Brasil ganhar a Copa do Mundo de futebol (9% de chance, hoje), hoje eventos como chance do Banco Central reduzir a taxa de juros em março (94%), um ministro do STF ser removido do cargo antes de 2027 (21%), Lula ser reeleito (53%) ou a inflação de 2026 estar entre 3,5 a 4% (49%) predominam. 

Em muitos casos, o contador precisa de dados objetivos e fontes razoáveis para sustentar suas previsões. Sabendo que a taxa de juros irá diminuir em março, isso pode alterar os valores usados no teste de impairment, por exemplo. Mesmo não usando os dados, é legal dar uma olhada. Agora o Polymarket está dizendo que a chance do Clube Atlético Mineiro ganhar do Grêmio na quarta, dia 25, é somente 29%, o mesmo percentual para o empate. 

22 fevereiro 2026

Deepfake do bem

A notícia é da Índia: 


Empreendedores estão recriando parentes falecidos ou ausentes para vídeos de casamento e outras ocasiões.

A indústria da “tecnologia do luto” tem benefícios, mas suas implicações de longo prazo ainda não estão claras.

A Índia elaborou projetos de lei para conter a enxurrada de deepfakes, que são usados majoritariamente para golpes e desinformação. 

Fei-Fei Li


Em uma época onde imigrantes são vistos de forma negativa, a história de Fei-Fei Li é impactante. Chegou nos Estados Unidos com 15 anos, sem falar inglês, com pais trabalhando em restaurantes. Ela consegue um emprego lavando pratos. É aprovada em Princeton, bolsa integral, e durante sete anos passava a semana no departamento de física e os finais de semana trabalhando na lavanderia que a família tinha aberto. Fez doutorado na Caltech. 

Em 2007, ela lidera uma equipe responsável pelo ImageNet, um grande conjunto de dados de visão computacional. Em 2012, a equipe rodou uma rede neural naquele conjunto de dados e reduziu pela metade a taxa de erro existente. Alguns consideram que foi o início do deep learning. 

Em 2024 funda a World Labs. Em quatro meses, captação de US$ 230 milhões e valuation de US$ 1 bilhão. Hoje, valuation em torno de US$ 5 bilhões.

Seu novo modelo, Marble, gera ambientes 3D persistentes a partir de texto ou imagens. Diferentemente dos geradores de vídeo que simulam profundidade quadro a quadro, o Marble cria espaço geométrico real, no qual os objetos permanecem onde você os deixou. (....)

De lavanderia a ImageNet e a uma empresa de inteligência espacial avaliada em US$ 5 bilhões. Fei-Fei Li fez agora duas apostas que o restante do campo considerava prematuras e grandes demais. A primeira criou a visão computacional moderna. A segunda tenta dar às máquinas a capacidade de compreender a física.

Se ela estiver certa novamente, este é o último grande desbloqueio antes que a IA incorporada realmente funcione.

 

Um caso recente de falha de comunicação contábil


Recentemente a imprensa anunciou que o banco público Banco do Brasil teve um aumento no índice de atraso acima de 90 dias, para 5,17%. A notícia inicial foi que a empresa responsável por uma dívida de 3,6 bilhões de reais seria a Braskem.  Mas a Braskem foi a público informar que não tinha dívidas com o banco estatal. Logo a seguir, descobriu-se que seria a Novonor a responsável pelo aumento da inadimplência.

Tudo isso parece indicar um problema de transparência e clareza na divulgação. Em contextos de análise de risco e contabilidade financeira, é crucial que os relatórios — em especial notas explicativas e comunicados aos investidores — deixem claro quem é o devedor responsável por um aumento tão substancial. 

21 fevereiro 2026

Jogos Olímpicos e recursos do governo


Fiquei imaginando replicar isso no Brasil:  

Os Jogos Olímpicos são um dos eventos esportivos mais amplamente seguidos e visíveis no mundo. Os governos alocam recursos para as Federações Esportivas em busca de resultados competitivos que dependem de uma combinação de fatores incertos. Este estudo aplica o índice Färe-Primont (FPI) pela primeira vez no campo do esporte para estimar a produtividade e a eficiência e analisar os resultados da participação das Federações Esportivas Espanholas nas últimas quatro edições dos Jogos Olímpicos (2008-2021). Procura também identificar a existência de padrões comportamentais nas Federações Esportivas Espanholas que fazem o melhor uso dos recursos disponíveis. Os resultados do estudo sugerem que a estrutura das fontes de financiamento, o tamanho dos órgãos governamentais e o período de tempo que os FSS competem (idade) são fatores que influenciam sua eficiência e produtividade. 

No caso de jogos olímpicos, eu tenho recursos alocados em esportes e uma medida objetiva de desempenho, no caso medalhas. Mas seria possível pensar nisso em outras situações? 

Guevara-Pérez, J. C., Le Clech, N. A., Martín Vallespin, E., & Urdaneta-Camacho, R. (2026). Evaluation of Spanish Olympic Federation Performance Using the Färe-Primont Index. Sage Open, 16(1). 

Língua e conteúdo

Para pensar 

Das cerca de 7.000 línguas globais, apenas algumas prosperam digitalmente, sendo que meras 10 línguas representam 82% de todo o conteúdo da internet. Essa enorme disparidade de recursos é o principal desafio para a moderação de conteúdo em idiomas que não o inglês. Antes do surgimento dos grandes modelos de linguagem (LLMs), ferramentas de moderação e revisores humanos já enfrentavam dificuldades, muitas vezes falhando em capturar a complexidade linguística da transliteração, da alternância de códigos (code-switching) e do sofisticado algospeak, comum em conteúdos não ingleses.

A ascensão dos LLMs apresenta um paradoxo. Embora esses sistemas sejam frequentemente celebrados como independentes de idioma, pesquisas mostram que são construídos sobre uma base que favorece fortemente o inglês e alguns outros idiomas dominantes, criando uma espécie de câmara de eco tipológica. Isso gera um ciclo de “os pobres ficam mais pobres” no espaço digital. Idiomas com muitos recursos recebem as melhores ferramentas de moderação, os chatbots mais precisos, os filtros mais seguros e dominam rankings de desempenho. Enquanto isso, comunidades que falam línguas de “baixo recurso” ficam com ferramentas que não entendem suas gírias, nuances culturais ou riscos de segurança.


O tom do texto é pessimista. Mas eu vejo algo bastante positivo, pois os modelos LLMs permite um acesso rápido ao que está ocorrendo no mundo. Eu consigo ler um jornal italiano, por exemplo, sem precisar saber italiano. E um estrangeiro pode ler o que escrevemos por aqui, sem necessitar de anos para aprender o português. Esse ponto não pode ser esquecido.

Mas a crítica pode ser pertinente em algumas situações. Já tive a experiência de solicitar algo para IA e claramente sua resposta passou, primeiro, pelo inglês. Ocorre com frequência quando peço ajuda em aspectos tecnológicos, como resolver problemas no Linux. Há também aspectos culturais e novamente citando um exemplo que tive, em um determinado momento o GPT respondeu uma pergunta minha e usou o sinal de ok, que na nossa cultura tem outro significado.  

Macaco de 1,3 milhão que virou 12 mil


Lembram das NFTs? Isso apareceu logo após o início da pandemia e trata-se da sigla para tokens não fungíveis. Se o leitor acha estranho, é porque realmente foi estranho. Seriam “ativos” baseados em blockchain, sob a forma de imagens de avatares ridículos, vendidos para celebridades e outras pessoas sem noção. O Bored Ape Yacht Club, da Yuga Labs, chegou a ter uma cópia vendida para a celebridade Justin Bieber por 1,3 milhão de dólares.

Quatro anos depois, o macaco comprado por Bieber vale algo em torno de 12 mil dólares — um enorme prejuízo. No auge da febre das NFTs, a brincadeira chegou a ser considerada um valor mobiliário sem registro e foi investigada pela SEC, a reguladora do mercado de capitais dos Estados Unidos.

Em 2026 temos que as NFTs não são valores mobiliários e talvez nem sejam ativos. A empresa Yuga Labs tenta sobreviver, com planos de abrir um espaço físico em Miami.

O proprietário de um NFT pode registrar no balanço? Uma estrutura de governança de uma empresa séria não deveria deixar. Apesar de existir um valor de mercado, é improvável que haja uma nova febre para comprar esses itens, ficando mais como uma curiosidade do que algo que possa ajudar uma empresa a gerar riqueza no futuro. Talvez até satisfaça a definição de ativo, possa ter uma mensuração possível, mas é um atestado de burrice da gestão da empresa.

 

20 fevereiro 2026

Saltadores de esqui, genitais e incentivos


A leitura número um do comportamento humano é que as pessoas reagem aos incentivos. E podemos ver isso nas competições esportivas. 

Agora estamos vendo os Jogos Olímpicos de Inverno, na Itália, que mostrou uma "trapaça" no curling ou uma discutível nota na patinação artística, dada por um juiz, favorecendo competidor de seu país. Mas achei muito mais curioso a prática de saltadores de esqui, que estariam injetando ácido hialurônico nos seus genitais, para melhorar o desempenho. 

O jornal alemão Bild, via aqui, trouxe essa informação e também a explicação: a injeção traz uma vantagem aerodinâmica, pois aumenta o tamanho do pênis, ampliando a área do traje. Isso traria maior sustentação ao saltador. Parece brincadeira, mas a agência que cuida do doping, a WADA, resolveu investigar. 

Não seria a primeira vez que o aumento da área do traje foi usado em competições: no ano passado, a equipe da Noruega estava adicionando uma costura na região da virilha para aumentar a área do traje. O efeito seria o mesmo, melhorando a aerodinâmica do traje.  

Há um estudo científico que mostra que esse aumento tem realmente impacto sobre o desempenho: cada aumento de dois centímetros na circunferência do traje, aumenta a sustentação em 4% ou 60 centímetros adicionais em um salto.  

Se você achava que somente os gestores de uma empresa eram movidos a base de incentivos, mude de ideia. Muitas empresas remuneram seus funcionários com base em medidas contábeis. Por mais regulada que seja a medida, isso provoca gerenciamento de resultado. Os atletas olímpicos também sabem disso.  

19 fevereiro 2026

Rir é o melhor remédio

 

Alguns cientistas sociais: economista, psicologista, arqueólogo, antropologista e geógrafo.  E alguns cientistas antissociais: astrônomo introvertido, solitário matemático, biólogo reclusivo, químico misantrópico. 

O contador estaria em qual coluna?  

Impairment em Veículos Elétricos


 As montadoras registraram $65 bilhões em baixas contábeis globalmente, à medida que as empresas foram forçadas a reformular seus investimentos em veículos elétricos (EVs), pressionadas por uma mudança na política climática dos EUA e por um entusiasmo superestimado com a transição verde.

Desde que os EUA eliminaram o crédito tributário federal de $7 500 em setembro, fabricantes de automóveis e de baterias vêm recuando: cancelando projetos, reduzindo investimentos e retomando planos de produzir mais veículos tradicionais movidos a gasolina. Não se trata, porém, de uma retirada uniforme; as vendas de carros totalmente elétricos superaram as de veículos exclusivamente a gasolina na União Europeia pela primeira vez em dezembro, mas as gigantes europeias ainda estão bastante afetadas pela queda da demanda nos EUA: a Stellantis, que antes acreditava que os EVs representariam metade de suas vendas nos EUA até 2030, sofreu um impacto de $26 bilhões após cancelar vários modelos totalmente elétricos e reativar seu motor de 5,7 litros para o mercado americano. Líderes do setor agora esperam que os EVs representem apenas 5% do mercado de veículos novos dos EUA nos próximos anos.

Fonte: semafor 

Reforma tributária e pesquisa contábil


Objetivo: Destacar os elementos centrais da Reforma Tributária (Lei Complementar n.º 214, de 2025), indicar caminhos para pesquisas em contabilidade e tributação, e mostrar como as mudanças no sistema tributário brasileiro podem orientar agendas acadêmicas.

Método: O estudo baseia-se em uma retrospectiva das pesquisas contábil-tributárias brasileiras e internacionais, entre 1925 e 2025, com base em dados da Web of Science, por meio do mapeamento de 5.592 artigos globais e 88 nacionais relacionados à tax avoidance, tax evasion e tax aggressiveness. O estudo utilizou o software VOSviewer para gerar mapas de densidade, clusters temáticos e redes de coautoria.

Resultados: Os achados mostram crescimento expressivo das pesquisas sobre tributação no mundo após 2000, e, no Brasil, após a convergência das normas contábeis às normas internacionais. Persistem limitações metodológicas, foco expressivo em companhias abertas e pouca presença internacional. A Reforma Tributária cria um ambiente favorável à expansão de temas como formação de preços, impactos setoriais, governança, sistemas de informação, tributação internacional e custos de conformidade.

Contribuições: Propõe-se uma agenda de pesquisa alinhada às transformações tributárias e às necessidades da contabilidade e da prática profissional, fortalecendo a construção do conhecimento e o papel da academia no diálogo com mercado e sociedade.

Fonte: aqui 

KPMG pegou funcionários usando IA para colar

Do Financial Review newsletter de ontem: 

Um sócio da KPMG Austrália literalmente pagará o preço após usar IA durante um curso de treinamento sobre a tecnologia.

O sócio, auditor registrado de empresas, concluiu um treinamento interno de IA [1] em julho. Após baixar um manual de referência recomendado, ele violou a política da firma ao enviar o documento para uma ferramenta de IA a fim de responder a uma questão de prova.

A firma multará o sócio em mais de $10 000, e o CA ANZ [2] agora está investigando a conduta.

O caso é um entre 28 ocorridos na firma desde julho [3], sendo os demais envolvendo funcionários de nível médio e júnior flagrados usando IA para colar.


A KPMG já tem histórico quando se trata de sócios e funcionários recorrerem a atalhos para trapacear em exames internos.

Em 2021, mais de 1100 sócios e funcionários da KPMG Austrália “estiveram envolvidos em compartilhamento impróprio de respostas ao realizar testes de treinamento”, nos quais receberam ou compartilharam respostas entre “pelo menos 2016 e o início de 2020”, segundo o US Public Company Accounting Oversight Board.

A firma prometeu reformas em resposta.

Em dezembro, a Rear Window [4] revelou que alguns funcionários de primeiro ano haviam usado IA para conluio em treinamentos internos.

A sanção contra o sócio pode parecer dura para alguns, dado que enviar documentos é prática comum no uso de IA. Mas parece que a firma tem um problema persistente de integridade.

A KPMG divulgará casos de cola relacionados à IA em seus resultados anuais ainda este ano. No entanto, a divulgação adicional pode não resolver o problema cultural mais profundo.

[1] Ironia aqui, não? Treinamento sobre IA e o aluno funcionário usou IA para responder. 

[2] Chartered Accountants Australia and New Zealand — o principal órgão profissional de contadores da Austrália e da Nova Zelândia. 

[3] Seria interessante saber o número de funcionários que fizeram o treinamento.  

[4] Um órgão investigativo da imprensa da Austrália 

18 fevereiro 2026

Milhas aéreas como um ativo


No livro Teoria da Contabilidade, Niyama e Silva discutem a questão das milhas aéreas. Acontece que a discussão é sob a ótica do passivo, da empresa que lança o plano de bonificação. E, sob a ótica de quem recebe as milhas, a discussão também é interessante. Mas, como geralmente não acontece nas empresas, o assunto não tem tanta relevância para a contabilidade financeira.

(Aqui um parêntese: muitas empresas exigem que seus funcionários repassem as milhas para a própria empresa, que irá usá-las no futuro. Estamos assumindo que não é essa a situação, mas que a empresa paga para seu funcionário e este coloca as milhas em sua conta pessoal. Isso também cabe discussão.)

Se, na companhia aérea, as milhas correspondem a um passivo, do lado de quem está usando o serviço — uma empresa ou uma pessoa — as milhas seriam um ativo. Mas o reconhecimento depende não somente de satisfazer a definição, mas também da mensuração. Se um passageiro ganha as milhas, mas isso não é suficiente para resgatar sob a forma de um bilhete extra, não devemos considerar como um ativo. É o caso do passageiro que viaja pouco por uma empresa e as milhas expiram com o tempo. Mas, caso exista chance de ocorrer o resgate das milhas, estas serão um ativo.

Em um mundo ideal, as milhas contabilizadas no passivo da empresa aérea deveriam ser iguais à soma das milhas existentes nos ativos das pessoas, físicas ou jurídicas. Na prática, não acontece por uma série de razões. De pronto, muitas pessoas não “reconhecem” as milhas em seus ativos, inclusive por não terem uma “contabilidade” adequada, como é o caso das pessoas físicas. Outra razão é que, para muitas empresas aéreas, o custo da milha é somente o custo variável, já que o custo fixo não depende do passageiro extra proveniente dos programas de fidelidade. Em alguns casos, a obtenção de pontos para serem trocados por milhas pode ser feita em transações fora do transporte aéreo, como é o caso do cliente que usa o cartão de crédito em uma compra em uma loja.

Para os consumidores que consomem seus recursos visando obter os bônus que darão direito à troca por milhas — e muitas vezes o fazem só por essa finalidade — as milhas podem ter um impacto negativo e não deveriam ser, rigorosamente, um ativo.

Foto aqui 

Orgulho de um país

Olha que interessante. Uma pesquisa perguntou a mais de 30 mil pessoas em 25 nações o que faz se sentir orgulhoso do país. Cada respondente explicou seus motivos, como pessoas, diversidade, governo, economia, cultura, estilo de vida e outras coisas mais.

Entre os países, o Brasil e 25% afirmaram ser um país acolhedor, o que significa um clima social positivo. Fatores naturais, como paisagem e geografia, abrangeram 17% das respostas, o que inclui a falta de desastres naturais. Mas um de cinco mencionaram algo negativo na sua resposta. 

Você pode consultar no link as respostas dos outros países.  

Rir é o melhor remédio


 Grande Maurício. Fechado para Balanço. 

17 fevereiro 2026

Cartel no Cafe nos anos 30


Investigamos como um cartel de commodities é criado ao estudar as negociações entre Colômbia e Brasil para estabilizar o mercado internacional de café na década de 1930. Mostramos como diferenças entre os atores envolvidos na indústria dentro dos países negociadores — em termos de propriedade da terra e do tipo de café produzido — impediram acordos iniciais de cartelização. A cartelização só foi alcançada quando quatro fatores convergiram: capacidade financeira e de infraestrutura para armazenar a produção excedente, conhecimento aprofundado da indústria por parte dos negociadores, pleno apoio governamental e presença de um terceiro agente fiscalizador. Combinamos uma abordagem inovadora de teoria dos jogos com fontes arquivísticas anteriormente inexploradas.

Link aqui 

Robles-Baez C, Medina LF, Bucheli M. The Political Economy of Commodity Cartel Formation: The Case of Coffee, 1930–1940. The Journal of Economic History. 2025;85(4):1066-1100. doi:10.1017/S0022050725100831
 

Resistência à IA e repugnância

 


De alimentos geneticamente modificados a veículos autônomos, a sociedade frequentemente resiste a tecnologias que, de outro modo, seriam benéficas. A resistência pode surgir de preocupações baseadas no desempenho, que diminuem à medida que a tecnologia melhora, ou de objeções baseadas em princípios, que persistem independentemente da capacidade. Utilizando uma pesquisa em larga escala nos Estados Unidos, com cotas compatíveis à demografia do censo e avaliando 940 ocupações (N = 23.570 avaliações de ocupações), distinguimos essas fontes no contexto da inteligência artificial (IA). Apesar da ansiedade cultural sobre a substituição de trabalhadores humanos pela IA, constatamos que os americanos demonstram surpreendente disposição em ceder a maioria das ocupações às máquinas. Dadas as capacidades atuais da IA, o público já apoia a automação de 30% das ocupações. Quando a IA é descrita como superando humanos a um custo menor, o apoio à automação quase dobra, chegando a 58% das ocupações. Ainda assim, um subconjunto restrito (12%) — incluindo cuidado, terapia e liderança espiritual — permanece categoricamente fora de cogitação, pois tal automação é vista como moralmente repugnante. Essa mudança revela que, para a maioria das ocupações, a resistência à IA está enraizada em preocupações de desempenho que desaparecem conforme suas capacidades melhoram, e não em objeções de princípio sobre quais trabalhos devem permanecer humanos. As ocupações que enfrentam resistência pública ao uso de IA tendem a oferecer salários mais altos e empregar desproporcionalmente trabalhadores brancos e mulheres. Assim, a resistência pública à IA corre o risco de reforçar desigualdades econômicas e raciais, ao mesmo tempo em que mitiga parcialmente desigualdades de gênero. Esses achados esclarecem a “economia moral do trabalho”, na qual a sociedade protege certos papéis não por limitações técnicas, mas por crenças duradouras sobre dignidade, cuidado e significado. Ao distinguir objeções baseadas em desempenho daquelas baseadas em princípios, fornecemos um arcabouço para antecipar e lidar com a resistência à adoção de tecnologias em diferentes domínios.

O artigo foi publicado na HBR, mas pode ser também lido aqui . Não há uma citação específica ao contador, mas a pesquisa trabalhou com tarefas próximas a nossa profissão

16 fevereiro 2026

Celular é um vício para os idosos

Ouço muito dizer que os jovens de hoje são menos esforçados e não querem nada com o trabalho sério e árduo. Logo em seguida, mencionam o celular — dizem que eles só querem ficar no aparelho. Mas parece que pesquisas recentes mostram que algo novo está ocorrendo: os 'viciados' em celular não são os mais jovens, mas sim os mais velhos.


Tudo bem que o 'tempo de tela' é uma métrica questionável. Quando coloco o temporizador no relógio, o relatório semanal acusa que usei a tela naqueles minutos, quando, na verdade, era apenas um alerta para interromper uma tarefa. Além disso, os dados são específicos de apenas um país. No entanto, a evolução do uso de celular mostra que as pessoas estão usando o aparelho cada vez mais.

O que surpreende é que adultos com mais de 36 anos usam mais o dispositivo do que jovens entre 17 e 25 anos. A diferença de tempo médio é pequena, mas o resultado não deixa de ser uma surpresa. O que explica esses dados? Primeiro, há um esforço dos jovens para se desconectarem. Eles realizam atividades onde o celular é proibido, como em certas aulas, ou onde o uso é menos frequente, como em baladas. Já os mais velhos adotaram de vez a tecnologia, que hoje é muito mais amigável para quem não nasceu no mundo conectado.

Professores universitários e a lista de Epstein


Um texto do Inside Higher Education chama a atenção para professores que tiveram ligação com Jeffrey Epstein. Tais professores geralmente atuavam em universidades de ponta e eram conhecidos por sua influência no campo de pesquisa. A divulgação dos arquivos de Epstein comprova que os nomes são realmente influentes.

A consequência é que alguns deles foram afastados da sala de aula ou tiveram centros de pesquisa fechados. Alguns renunciaram a seus postos; outros estão sendo investigados. Eventos foram cancelados e apurações estão sendo realizadas.

Apesar de alguns alegarem contatos apenas acadêmicos ou filantrópicos, a associação com o criminoso gerou pressão institucional em razão desse vínculo indevido. O texto cita vários professores, incluindo, por exemplo, Gelernter (foto), professor de computação em Yale, que correspondeu com Epstein entre 2009 e 2015. Os documentos mencionam visitas e mulheres, sendo que Gelernter recomendou uma aluna para uma posição, ressaltando que era uma loura bonita.

Outro, Mark Tramo, da UCLA, na área de neurologia, chegou a receber dinheiro de Epstein. Com as revelações, Tramo afirmou que não tinha ideia de que Epstein era um pervertido. Contudo, há mensagens que mostram que ele sabia da condenação de Epstein em 2007.

Outros nomes que estão na lista: Dan Ariely, Edward Boyden, Noam Chomsky, George Church, Richard Dawkins, Stephen Hawking, Jack Horner, Stephen Kosslyn, Martin Nowak, Steven Pinker, Lisa Randall, Larry Summers, Corina Tarnita, Robert Trivers e Nathan Wolfe. 

Ingresso para o Louvre


A notícia que li na newsletter 1440 (fonte AP) comenta mais um problema com o Museu do Louvre. O mais prestigiado museu do mundo, depois de passar pelo roubo de uma coleção valiosa no final do ano passado, descobriu uma fraude de 11,8 milhões de dólares. A polícia francesa prendeu nove pessoas, incluindo dois funcionários do museu e guias turísticos.

O interessante de uma notícia como essa é notar as falhas de controle de uma organização. No caso do museu, ingressos estavam sendo reutilizados por guias chineses, e os funcionários participavam do esquema evitando a verificação dos bilhetes. A estimativa da investigação é de que até 20 grupos de turismo por dia tenham passado pelo esquema nos últimos dez anos, totalizando cerca de 72 mil grupos.

A suspeita existe desde o final de 2024, mas somente agora o caso foi oficialmente apresentado, após a polícia usar escutas para embasar o inquérito. Há suspeitas de que um caso semelhante possa ter ocorrido no Palácio de Versalhes. Vejam que impressionante: bastam dois funcionários para viabilizar uma fraude de 11,8 milhões.

12 fevereiro 2026

Quando a experiência em contabilidade importa

O resumo 

Documentamos que empresas detidas por gestores de fundos mútuos com experiência prévia em contabilidade pública apresentam relatórios financeiros de maior qualidade, evidenciada por uma menor probabilidade de reapresentações (retificações) de demonstrações financeiras. Evidências adicionais mostram que gestores com experiência em contabilidade pública têm maior probabilidade de realizar visitas às empresas de seu portfólio e de discutir temas relacionados a políticas contábeis durante essas visitas. Além disso, a probabilidade de reapresentações diminui após as visitas dos gestores, especialmente quando levantam questões ligadas a políticas contábeis. Em resultados transversais consistentes com as expectativas, constatamos que o papel da experiência em contabilidade pública é ampliado quando a empresa enfrenta problemas de agência mais severos, maior assimetria informacional, quando os gestores são mais avessos ao risco, possuem experiência prévia em grandes firmas de auditoria, detêm maior participação acionária na empresa ou quando há coordenação entre fundos mútuos. Em conjunto, as evidências sugerem que gestores com experiência em contabilidade pública impõem monitoramento externo mais rigoroso sobre as escolhas de reporte financeiro das empresas investidas.

Aumento do Bem-estar entre tabalhadores e o papel da Idade

O resumo:  

Examinamos como o bem-estar de trabalhadores e não trabalhadores varia por idade em 171 países em oito pesquisas internacionais. Em 103 países (60%), encontramos evidências de que o bem-estar dos trabalhadores aumenta com a idade e o mal-estar dos trabalhadores diminui com a idade. Esta relação parece ter se fortalecido ao longo do tempo em alguns países. Padrões são diferentes entre não trabalhadores e são sensíveis ao modo da pesquisa. Onde as pesquisas são conduzidas usando Entrevistas Web Assistidas por Computador (CAWI), o bem-estar dos não trabalhadores tem formato de U, mas isso é menos claro quando os dados são coletados com Entrevistas Telefônicas Assistidas por Computador (CATI). A mudança no perfil de idade do bem-estar dos trabalhadores pode refletir mudanças na seleção para dentro (ou fora) do emprego por idade, mudanças na qualidade do trabalho, ou mudanças na orientação de jovens trabalhadores para trabalhos semelhantes ao longo do tempo. Mas mudanças no uso de smartphones — frequentemente o foco do debate a respeito do declínio do bem-estar dos jovens — são improváveis de serem o principal culpado, a menos que existam diferenças consideráveis no uso de smartphones entre trabalhadores jovens e não trabalhadores, o que parece improvável.

Risco Brasil, segundo Damodaran

 O grande nome do Valuation, Damodaran, publicou uma atualização da sua base de dados. O prêmio pelo risco do Brasil seria 7,47%, enquanto o CDS seria 2,35%


 Mais sobre o tema, vide aqui

Mais tecnologia, melhor educação?


Uma pesquisa de longo prazo no Peru concluiu que a resposta da questão do título é não. Estudantes receberam um laptop e foram acompanhadas por dez anos. O resultado foi que não existe melhoria significativa no desempenho acadêmico, nem progresso ao longo do tempo. 

Para entender por que o programa OLPC não conseguiu melhorar os resultados educacionais, analisamos dados de pesquisas que coletamos em 2013 em um subconjunto de 140 escolas. Verificamos que os docentes das escolas tratadas tinham 35 pontos percentuais a mais de probabilidade de relatar ter recebido capacitação no uso dos computadores XO do que os docentes das escolas de controle. No entanto, não observamos melhorias em suas habilidades digitais para usar computadores XO, computadores pessoais ou internet, nem um aumento substancial no uso de computadores em sala de aula para fins pedagógicos.

No caso dos estudantes, o programa aumentou em 20 pontos percentuais o uso de computadores XO em casa no dia anterior à pesquisa. Em linha com isso, encontramos efeitos positivos relevantes (0,4 desvios-padrão) nas habilidades digitais dos estudantes para utilizar esses computadores. Contudo, não identificamos efeitos sobre um índice de habilidades cognitivas que combina o teste das Matrizes Progressivas de Raven, provas de fluência verbal e testes de codificação. Esses resultados sugerem que, embora o programa tenha melhorado habilidades digitais específicas, teve efeitos limitados sobre outros resultados intermediários relevantes para a aprendizagem.