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11 setembro 2022

Sem imposto de herança

 

Enquanto os plebeus pagam 40% de imposto de herança, os bens da rainha serão transferidos para Carlos III (ou Charles III, como querem os brasileiros) sem a taxação. Será verdade isto? 

Exemplo de professoras mulheres


Veja que interessante: professoras mulheres servem de exemplo para estudantes mulheres. Certamente temos exemplos para contar, mas uma pesquisa, usando dados do passado, constatou isto. Eis o resumo:

It is widely believed that female students benefit from being taught by female teachers, particularly when those teachers serve as counter-stereotypical role models. We study education in rural areas of the US circa 1940–a setting in which there were few professional female exemplars other than teachers–and find that female students were more successful when their primary-school teachers were disproportionately female. Impacts are lifelong: female students taught by female teachers were more likely to move up the educational ladder by completing high school and attending college, and had higher lifetime family income and increased longevity.

Via aqui. Foto: ThisisEngineering RAEng

IFRS para as pequenas empresas

 

Sobre a atualização da norma de contabilidade, emitida pela Fundação IFRS, para as Pequenas e Médias empresas:

O International Accounting Standards Board apresentou propostas de atualização para a IFRS for SMEs accounting standard quinta-feira, para refletir melhorias recentes nas Normas Internacionais de Relato Financeiro para pequenas e médias entidades.

As propostas do IASB incluem a atualização dos princípios padrão atuais para alinhar-se (1) aos da Conceptual Framework for Financial Reporting emitida em 2018, que visava estabelecer conceitos fundamentais de relatórios financeiros para apoiar o conselho no desenvolvimento do IFRS. O papel da estrutura é fornecer informações precisas aos investidores, credores e credores enquanto implementa um precedente padrão, para que transações semelhantes sejam sempre tratadas da mesma maneira. Os novos padrões também são definidos para seguir requisitos simplificados com base em IFRS 13 Fair Value Measurement e IFRS 15 Revenue from Contracts with Customers. O IFRS para PMEs fornece um conjunto simplificado de padrões que pequenas e médias empresas privadas podem usar sem lidar com as regras complexas exigidas pelas empresas de capital aberto (2).

IASB e Fundação IFRS Foundation em Londres

"O IFRS para o Padrão Contábil para PMEs foi desenvolvido a partir dos princípios e requisitos das Normas Contábeis IFRS completas, mas simplificado levando em consideração as diferentes necessidades dos usuários e reduzindo o custo e a complexidade dos preparadores" disse o presidente do IASB, Andreas Barckow, em um comunicado.

(1) Isto é interessante, pois a Estrutura Conceitual está subordinada aos pronunciamentos. Assim, não é necessário atualizar a norma somente por conta deste fato.

(2) O texto assume que as normas IFRS são para empresas de capital aberto. Há uma confusão aqui. 

Rir é o melhor remédio

 

Como formar preço. Uma lição de economia. Via aqui

10 setembro 2022

A existência de trapaça no xadrez

Nesta semana, o mundo do xadrez teve um grande assunto: o abandono do atual campeão Magnus Carlsen em um torneio que estava sendo disputado em Saint Louis, no dia seguinte a sua derrota para um jovem enxadrista. É a primeira vez que Carlsen abandona um torneio, ele que é conhecido por sequer deixar de lado partidas que seriam empatadas.

Ao comunicar sua decisão nas redes sociais, Carlsen colocou um link para um vídeo do técnico de futebol português José Mourinho, dando a entender que ocorreu algum tipo de trapaça no jogo onde foi derrotado. Os comentários dos fãs reforçaram a ideia de que tinha ocorrido algum problema no jogo. O adversário, Hans Moke Niemann, tem 19 anos e confessou que trapaceou em jogos online de xadrez quando era mais jovem.

Um dos maiores jogadores atuais, Nakamura, fez um comentário no seu site de que provavelmente ocorreu algo estranho no jogo. Alguns outros jogadores entenderam que a derrota de Carlsen seria algo natural e que não ocorreu nenhum tipo de trapaça.

Nos dias seguintes ao abandono de Carlsen, o torneio reforçou as medidas de segurança. Era possível notar que na chegada dos jogadores ao local do torneio a revista por detectores era mais demorada.

Trapaça no Xadrez - É estranho falar em trapaça em um jogo onde as informações estão disponíveis para ambos os jogadores. Mas isto faz parte da história. Nos anos trinta, em uma disputa pelo título de campeão mundial, um dos jogadores tinha uma inclinação para a bebida. Conta a lenda que alguns amigos do adversário induziram o acesso à bebida e isto terminou por prejudicar seu desempenho na disputa.

No final dos anos cinquenta e início dos anos sessenta, o candidato a disputa ao título era decidido em um torneio onde os principais jogadores jogavam entre si. Como a antiga União Soviética tinha bons jogadores, as partidas entre eles eram rápidas e o resultado, afirma-se, decidido conforme o interesse os dirigentes. Se um jogador soviético estava disputando as primeiras posições e jogava contra outro jogador soviético, em uma posição menos favorável, a partida era curta, com resultado favorável ao primeiro. Na rodada seguinte, mais descansado, este jogador tinha mais chance contra seus adversários.

O esquema funcionou até que jovem Bob Fisher fez uma denúncia e disse que só disputaria o título se a forma de escolha do candidato que desafiaria o campeão mudasse. Fisher conseguiu a mudança do critério. Fisher provou sua qualidade, vencendo dois dos maiores jogadores da época: 12 vitórias em 12 partidas.

Durante os anos setenta, no confronto entre Karpov, então campeão mundial, e o dissidente Korchnoi, este acusou o soviético de usar um hipnotizador na plateia. Isto estaria atrapalhando o desempenho de Korchnoi. Como o enxadrista conhecia os truques usados pela União Soviética, incluindo a combinação de resultados e outras acusações, a história parece ter um fundo de verdade.

Nos tempos atuais temos diversas formas de trapaça. Uma delas é criar torneios arranjados, ou até mesmo falsos, para que uma pessoa, que contratou os serviços, possa ter um desempenho suficiente para ele obter o título de Grande Mestre ou Mestre Internacional. Outra é usar aparelhos eletrônicos. Um enxadrista foi pego no banheiro com um celular, consultando um software sobre sua melhor jogada. E não podemos descartar a possibilidade de alguma forma de comunicação entre o jogador e alguém externo, que repassaria as melhores jogadas a serem realizadas. E, finalmente, não podemos descartar resultados arranjados entre jogadores.

Ocorreu Trapaça? - O jogo entre Carlsen e Neumann tem alguns aspectos curiosos. Geralmente a organização de um grande torneio convida alguns dos melhores jogadores do mundo. No caso de Saint Louis, foram dez dos melhores. Estão jogando, além de Carlsen, o primeiro do mundo, o terceiro, quarto, quinto, sexto, oitavo e nono do mundo. Completam os melhores o 12o. E o 16o. Do mundo. Também é comum convidar uma jovem promessa local. Neumann tinha um rating de 2687 antes do torneio e era o 51o. Do mundo. Uma posição respeitável, mas há outros jovens mais promissores: Fiorouja, com 2780 de rating e quarto lugar no mundo, está no torneio. Ereigsi (Índia, 19 anos, 2728), Gukesh (Índia, 2726, 16 anos), Abdusattorov (Uzbequistão, 2713, 17 anos) e Keymar (Alemanha, 2712,8, 17 anos). Mas Neumann é da casa e isto pode justificar o convite.

Uma das características de Magnus Carlsen é fazer a preparação de abertura “fora do livro”. Mesmo que a posição não seja a melhor para ele, sua preferência é causar desconforto no adversário. Quando a partida vai para o meio jogo ou final, Carlsen, com sua habilidade, consegue reverter o jogo. Um ponto que depõe a favor daqueles que acreditam ter acontecido algo estranho é o fato de que Neumann confessou que tinha estudado a abertura escolhida por Carlsen no dia. Pareceu muito coincidência.

Outro ponto é o fato de Neumann não ser muito bom em xadrez com uma menor quantidade de tempo. Seu rating em rápido é 2529, ou 272o. No mundo, e seu rating no xadrez blitz é 2672 ou 72o lugar no mundo. Apesar do jogo ter sido no xadrez tradicional, com tempo para reflexão, a posição no xadrez jogado com menor tempo é importante para casos de apuros no tempo.

A lembrança que Neumann trapaceou no passado é controversa. Estamos aqui analisando a seguinte questão: o trapaceiro do passado terá mais propensão a trapacear no futuro? Se você responde que sim, então a desconfiança faz sentido. Se você acredita que um jovem pode mudar seu comportamento com o passar do tempo, então não faz sentido voltar no tempo. Caso acredite que dependerá dos benefícios, podemos dizer que a vitória de Neumann, se não fosse contestada, teria um elevado valor, seja em termos da premiação, ou em termos da quantidade de pontos que obteria no rating. A partir, para Neumann, significou 7,3 pontos e fez o jovem romper a barreira dos 2700 de rating.

O passado também ajuda a questionar o que ocorreu. Sua evolução nos últimos meses foi fantástica o que também tornar a posição de Neumann mais duvidosa.

Logo após o torneio, Neumann deu uma entrevista dizendo que Carlsen perdeu para um idiota. Bem deselegante. Alguns acham que isto, na verdade, foi o motivo de Carlsen sair do torneio.

A favor de Neumann há vários pontos. Os jogadores do torneio passaram por uma revista na sua chegada, o que dificulta a transmissão de opiniões para os jogadores durante o jogo. Como então Neumann poderia trapacear? Além disto, a segurança ficou maior após o que ocorreu e Neumann, após o ocorrido, conseguiu três empates, contra jogadores mais fortes, e uma derrota. Isto reforça a posição de Neumann.

Ainda não é possível afirmar com segurança o que ocorreu no jogo. Mas diante de todo este contexto, eu arriscaria a dizer que algo de estranho ocorreu na partida. Talvez não a comunicação via aparelho de comunicação, mas a venda da análise por parte de alguém da equipe de Carlsen. É um grande palpite meu.

Trabalho em casa no mundo com pandemia

Uma pesquisa com quase 30 mil pessoas, em 27 países do mundo, incluindo o Brasil, mostrou a mudança ocorrida no mundo com a pandemia. O trabalho em caso parece ser uma nova realidade, onde em média as pessoas trabalham 1,5 dia por semana (1,7 para o Brasil). Há também uma diferença entre o número de dias oferecido pelo empregador para o trabalho em casa (0,8 dia para o Brasil) para o número desejado pelo empregado (2,3 também para o Brasil), indicando uma diferença grande. 

Entre os países da amostra, o Brasil foi o segundo em mortes por habitantes durante a pandemia. 

Eis o resumo:

The pandemic triggered a large, lasting shift to work from home (WFH). To study this shift, we survey full-time workers who finished primary school in 27 countries as of mid 2021 and early 2022. Our cross-country comparisons control for age, gender, education, and industry and treat the U.S. mean as the baseline. We find, first, that WFH averages 1.5 days per week in our sample, ranging widely across countries. Second, employers plan an average of 0.7 WFH days per week after the pandemic, but workers want 1.7 days. Third, employees value the option to WFH 2-3 days per week at 5 percent of pay, on average, with higher valuations for women, people with children and those with longer commutes. Fourth, most employees were favorably surprised by their WFH productivity during the pandemic. Fifth, looking across individuals, employer plans for WFH levels after the pandemic rise strongly with WFH productivity surprises during the pandemic. Sixth, looking across countries, planned WFH levels rise with the cumulative stringency of governmentmandated lockdowns during the pandemic. We draw on these results to explain the big shift to WFH and to consider some implications for workers, organization, cities, and the pace of innovation. 

Rir é o melhor remédio

 


09 setembro 2022

O valor do selo real


Encontrei uma notícia interessante:

Fornecedor real - De champanhes franceses a bebidas gaseificadas, passando por pequenos produtores britânicos, as marcas que abastecem a Coroa têm o privilégio de expor o brasão real em seus comércios. Uma grande honra e, sobretudo, um formidável argumento de venda para os escolhidos.

Eis um bom exemplo para discutir o valor da realeza. 

Os ativos da realeza britânica

A Inglaterra ainda lamentava a morte da rainha Elizabeth II enquanto saudou a ascensão de seu filho como rei Charles III. Por mais que os procedimentos formais do luto real e da coroação de um novo monarca estejam em destaque, também vale a pena examinar o estado da fortuna multibilionária dos Windsors, que agora mudará de mãos.

Em 2021, a Forbes estimou que o império da família real estava acumulado em US$ 28 bilhões (R$ 144 bilhõesm aproximadamente) , o que, na teoria, tornava os Windsors um dos dois clãs mais ricos da Grã-Bretanha. Entre suas propriedades está o Palácio de Buckingham (foto), assim como as joias da própria coroa que a rainha usava. Além disso, eles possuem escritórios, um importante campo de críquete em Londres e vastas extensões de terra, localizadas inclusive em áreas externas à ilha.

fonte: aqui. Foto: Hailey Wagner

O problema aqui é a liquidez e a falta de comerciabilidade. Não existe dúvida que um palácio, como o de Buckingham, tem um elevado valor histórico e hedônico. Mas como "contabilizar" isto? E a dinastia tem autorização de vendê-lo? (Acredito que não). 

Charles, Elisabeth e nosso blog - 1

Pesquisando o histórico das postagens do blog encontramos este recorte de jornal:



Uma coluna do jornal faz uma fofoca sobre o jovem Charles, herdeiro do trono inglês. Era 1966 e Charles realmente era um jovem. O texto diz que Charles era fraco em matemática. Conclui que “quem é pobre, não precisa se preocupar com matemática nem contabilidade; quem é rico, contrata um bom contador”.

Já em julho deste ano postamos que o príncipe Charles, que defende o ambiente, usa jatinho particular para não pegar trânsito:

Também postamos sobre o custo da monarquia (aqui a espanhola e aqui a britânica). Recentemente, o custo do casal William e Meghan

Rir é o melhor remédio

 

Do Chess Anarchy: rainha versus duas torres. Dois eventos em setembro, nos EUA e no RU

08 setembro 2022

Uma possível solução para o p-hacking e o viés da publicação

Um dos problemas da pesquisa científica publicada é a existência do p-hacking, ou seja, a manipulação e/ou a seleção de resultados com determinados valores estatísticos. Como o pesquisador sabe que certos resultados podem aumentar a chance de publicação da sua pesquisa, há uma escolha ou uma tentativa de forçar certos resultados.

Suponha uma pesquisa sobre a relação entre o anúncio de resultados contábeis afetando o preço das ações. E considere também que os resultados serão mais aceitos caso tenha a comprovação da relação. Haverá uma tendência do pesquisador em forçar a apresentação dos resultados. Para o periódico, a publicação de uma pesquisa com esta relação será mais interessante, pois pode aumentar o número de pessoas que irá ler o trabalho e o número de outros pesquisadores que irão citá-lo. Isto é o p-hacking e sua consequência é um viés de publicação dos resultados. 

Um forma de resolver este problema é exigir um registro prévio do método a ser empregado, antes de iniciar a pesquisa. Isto irá garantir que não exista mudança na técnica estatística usada, que é algo comum quando o pesquisador deseja encontrar certo resultado. Uma forma mais rigorosa ainda é garantir que hipótese será testada e como isto irá ocorrer; Isso deve ser feito antes da pesquisa começar e é chamada de análise prévia ou PAP em inglês. 

Como o p-hacking passou a ser discutido nas ciências, ambas as soluções (registro prévio e análise prévia do planejamento) tornaram-se desejáveis. 
O gráfico mostra que o registro prévio nos periódicos de economia estão crescendo substancialmente. E entre os periódicos mais relevantes isto parece ser uma regra básica. Os outros periódicos estão acompanhando a onda. 

Mas será que isto funciona? Já foram desenvolvidos testes para verificar a existência de p-hacking e do viés da publicação que ocorre. Agora, quatro pesquisadores analisaram quase 16 mil estudos, com ensaios aleatórios controlados (RCT em inglês) e se isto reduziu os dois problemas. 
 
Como o pré-registro e o PAP são procedimentos distintos, a pesquisa analisou ambos. O gráfico acima mostra a distribuição dos testes estatísticos para a primeira situação, ou seja, do pré-registro. Na verdade, o gráfico da esquerda é a pesquisa sem pré-registro e o gráfico da direito é com o pré-registro. Se você achou que os gráficos parecem iguais, sua impressão é correta. Será que isto muda com um maior rigor, ou seja, com o PAP? O resultado está abaixo:
Os dois gráficos podem parecer idênticos, mas quando os autores analisaram os testes para verificar a presença de p-hacking o resultado mostrou que são estatisticamente diferentes. 

Eis o resumo do artigo:

Randomized controlled trials (RCTs) are increasingly prominent in economics, with preregistration and pre-analysis plans (PAPs) promoted as important in ensuring the credibility of findings. We investigate whether these tools reduce the extent of p-hacking and publication bias by collecting and studying the universe of test statistics, 15,992 in total, from RCTs published in 15 leading economics journals from 2018 through 2021. In our primary analysis, we find no meaningful difference in the distribution of test statistics from pre-registered studies, compared to their non-pre-registered counterparts. However, preregisterd studies that have a complete PAP are significantly less p-hacked. This results point to the importance of PAPs, rather than pre-registration in itself, in ensuring credibility

07 setembro 2022

Abismo entre o valor de mercado no futebol

 

Os dados são do site Transfermarkt e o gráfico é do site Statista e mostra o valor de alguns times estarão em campo nesta semana, disputando a Champions League. Enquanto o City possui um valor de mercado estimado de 1 bilhão, o israelense Maccabi Haifa tem um valor de 22 milhões de euros. A discrepância é muito grande e os cinco clubes com menor valor de mercado não devem passar para próxima fase. Mas a participação agora no campeonato de futebol europeu já garante uma receita adicional substancial. 

06 setembro 2022

 Em "Com Tecnologia, Uber barrou Fiscalização" mostra como uma grande empresa pode colocar barreiras na fiscalização da autoridade local e o uso da tecnologia para esta finalidade.

O foco é a fiscalização européia contra o Uber em 2015. Alguns trechos:

Vinte minutos depois de as autoridades invadirem o escritório do Uber em Amsterdã, em abril de 2015, a tela do computador de Ligea Wells ficou misteriosamente em branco. A assistente executiva escreveu uma mensagem para o chefe avisando sobre mais um dos acontecimentos estranhos naquele dia já movimentado.

“Olá!”, digitou ela em mensagem que faz parte de uma coleção valiosa de mais de 124 mil registros do Uber não revelados antes. “Meu laptop desligou depois de se comportar de modo esquisito.”

(...) O então CEO do Uber, Travis Kalanick, tinha ordenado que o sistema de computadores em Amsterdã fosse desconectado da rede interna da empresa, tornando os dados inacessíveis às autoridades enquanto fiscalizavam a sede europeia, mostram documentos.


“Acione o botão de emergência o mais rápido possível, por favor”, pediu Kalanick por e-mail, ordenando que se desconectassem os laptops do escritório e outros dispositivos.

O Uber ter lançado mão do que pessoas do setor chamam de “kill switch” foi um exemplo claro de como a empresa empregava ferramentas tecnológicas para impedir que autoridades investigassem as práticas de negócios da empresa, enquanto ela prejudicava a indústria global de táxis, de acordo com os documentos.

Durante aquele período, como a avaliação de mercado do Uber ultrapassava os US$ 50 bilhões, inspeções do governo ocorriam com tanta frequência que a empresa distribuiu um manual para que os funcionários soubessem o que fazer quando acontecessem. O guia tinha 66 passos a serem seguidos, incluindo “levar as autoridades para uma sala de reuniões sem qualquer arquivo” e “nunca deixá-las sozinhas”.

Esse manual, assim como as trocas de mensagens de texto e e-mails relacionados àquela fiscalização em Amsterdã, fazem parte do “Uber Files”, um tesouro de 18,7 gigabytes de dados obtidos pelo jornal britânico Guardian e compartilhados com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, um grupo de veículos de imprensa sem fins lucrativos que ajudou a liderar o projeto. Os arquivos, que abrangem o período de 2013 a 2017, incluem 83 mil e-mails, apresentações e mensagens.

Nos dias atuais, o Uber reconhece que fez isto. Mas joga a responsabilidade na gestão anterior.

Controvérsia no Custo Social do Carbono


O custo social do carbono (SCC) é o custo dos impactos gerados pela emissão de uma tonelada a mais de dióxido de carbono. Por sua definição trata-se de um custo marginal. O SCC leva em consideração não somente os efeitos mercantis quanto as consequências da emissão para o meio ambiente e a saúde humana.

A proposta de media o SCC é ter um parâmetro para os formuladores de política pública avaliarem o efeito no clima da emissão é justificado. Se o gestor público tem um projeto que irá produzir mil unidades monetárias de benefício social, mas emite 10 toneladas de carbono, deve multiplicar estas dez toneladas pelo SCC e confrontar com o benefício social geral. Como algumas estimativas consideram que o SCC tem um valor acima de 300 dólares por tonelada, o projeto não deve ser implementado, já que o custo para o ambiente ultrapassa o benefício social.

Um dos grandes desafios é mensurar o valor do SCC. Na metodologia é necessário considerar os impactos para a saúde humana, os danos causados pela emissão e o esforço necessário para reduzir este impacto. Isto é difícil, já que em muitos casos não temos um parâmetro, como o preço de mercado, para determinar os valores envolvidos nos cálculos. Mas não é somente isto. Como muitos efeitos são a longo prazo, é necessário trazer os montantes para valor presente no processo de comparação, o que exige uma taxa de desconto. Mais um complicador para a medição do SCC.

Mesmo a estimativa dos efeitos deve levar em consideração os vários cenários existentes, além de calcular as chances dos cenários ocorrerem. Em muitos modelos, a estimativa leva em consideração acordos que foram feitos pelos países em relação ao comportamento do aquecimento global no futuro. Vamos explicar isto. Se os países concordaram que a temperatura média da terra não deve aumentar mais que um grau Celsius, este deve ser o objetivo do modelo usado para o cálculo. Apesar de termos uma grande quantidade de informações sobre o clima, a complexidade é enorme.


Veja a questão da taxa de desconto. Se usarmos uma taxa de desconto próxima ao que é praticada com os títulos do governo, o valor final será diferente se utilizarmos uma taxa de desconto próxima aos títulos privados. Considere um exemplo de um projeto que irá gerar um custo anual para sociedade de $50 para as próximas décadas. Para simplificar, este valor é constante no tempo. Suponha que a taxa de retorno dos títulos públicos seja de 1%. É possível usar esta taxa, supondo que caso a questão ambiental seja um problema no futuro, deve ser resolvida pelo governo.

O valor de $50 pode ser trazido a valor presente, bastando dividir este valor pela taxa de 1% ou 0,01. Uma calculadora simples mostra que este valor é de $5.000. Este seria o custo do projeto deve ser considerado na decisão do governo.


Mas há controvérsia sobre a taxa de desconto. Alguns consideram que a taxa usada deve ser a do mercado. Afinal, um problema ambiental irá afetar a sociedade como um todo, o que inclui as empresas e os negócios. Esta é a posição de Nordhaus, um cientista conhecido por sua contribuição neste cálculo e que ganhou o prêmio Nobel em Economia. Se a taxa de desconto dos negócios estiver em 6%, eu devo usar este valor, não a taxa de 1%. Isto pode fazer diferença no resultado final. Usando este 6% ou 0,06, o valor presente do exemplo será de 833, bem menor que o valor anterior.

De qualquer forma, quando uma autoridade define o preço do carbono, este valor termina sendo usado neste tipo de cálculo. Esta autoridade pode ser um grupo de cientistas, uma organização que estuda o assunto ou mesmo o governo. O peso do governo é importante aqui, pois o próprio governo irá usar seus cálculos.

O problema é que cada estudo que é realizado tem um resultado diferente. E é normal que isto ocorra, pois variando as “entradas” do modelo e o modelo usado para cálculo teremos um resultado diferente.

Há um problema aqui, pois se subestimamos o valor do SCC, decisões de fazer certos projetos serão positivas, mesmo tem um elevado SCC real. Se superestimamos o SCC, projetos “bons” não serão implementados. Isto dá margem para que a discussão sobre o SCC seja também política. Veja a questão nos Estados Unidos. A discussão sobre o assunto começou ainda no governo Reagan. Mas o debate foi adiante quando, no governo Obama, a administração usou um “consenso” para fazer uma estimativa de US$38 para 2015, com valores crescentes ao longo do ano. Com a mudança da administração, o governo Trump passou a usar uma estimativa entre US$1 a US$7 em 2020. A nova alteração na presidência provocou uma nova mudança, retomando a metodologia anterior. Isto corresponde a US$51 nos dias atuais.

O fato do SCC ter valores incertos não ajuda. Em alguns países, como aqueles da Comunidade Europeia, o SCC não é mais usado. Mas mesmo nos Estados Unidos, que utiliza o SCC, o valor tem sido questionado. Um estudo recente, publicado na Nature, estimou que o valor correto seria de US$185 por tonelada, mais de três vezes o valor usado atualmente pelo governo dos Estados Unidos. Isto significa que naquele país projetos “ruins” estão sendo aprovados.

O assustador no estudo acima é que o principal fator do custo social do carbono é a estimativa de mortes relacionadas com as mudanças do clima. Metade do valor teria esta origem. Este trabalho enfatiza, inclusive, que a estimativa feita é conservadora, pois não levou em consideração a perda de biodiversidade, a redução de produtividade no trabalho, o aumento nos conflitos, a violência e a migração relacionada com o clima.

Sobre o assunto:

Pontecorvo, Emily. The Most Influential Calculation in US Climate Policy is Way off Study Finds. Grist

Social Cost of Carbon. Wikipedia.

Rennert, Kevin; Errickson, Frank; Prest, Brian C.; Rennels, Lisa; et al. (1 September 2022). "Comprehensive Evidence Implies a Higher Social Cost of CO2". Nature. doi:10.1038/s41586-022-05224-9

Neste blog: aqui, aqui (uma crítica ao risco financeiro climático) e aqui (uma reportagem de 2006 do Valor)

Foto: veeterzy

Desonestidade ou Generosidade: não é tão simples

 


O ser humano é generoso, como parece indicar do jogo do ultimatum? Ou será egoísta, como observamos na realidade, quando somos desonestos? 

Um experimento com o jogo do ladrão chegou ao seguinte resultado interessante. Os participantes foram generosos com outras pessoas, como é possível ver na nossa realidade. Mas quando a decisão era realizada, podendo prejudicar um grupo de pessoas, a desonestidade apareceu. 

Quando roubamos de um grupo grande pessoas, a recompensa monetária é maior e o efeito, em termos de desigualdade, é menor. Somos generosos com o outro, mas gananciosos com o grupo. E parece que o valor envolvido é relevante. Eis a conclusão

Lo que nuestro experimento demuestra es que el comportamiento humano es complejo, y que ni somos egoístas sin escrúpulos ni angelitos de ojos verdes. Psicópatas aparte (que haberlos, “haylos”), pocos quieren hacer daño a los demás… pero si el beneficio propio es lo suficientemente grande, muchos de nosotros caeremos en la tentación, aunque nos hayamos jurado que no. Quizá no deberíamos sorprendernos si personas que no habían nunca roto un plato, sean políticos de altos ideales, emprendedores campechanos, o gente como nosotros, caen en la tentación al alcanzar ciertos niveles. Y quizá debiésemos asumir lo que somos y apostar más por instituciones sólidas con mecanismos de control transparentes, y menos por personas de sonrisa cálida, palabra ágil, o incluso currículum impecable. No es que no nos fiemos de ellos y ellas. Es que no nos fiamos de nosotros.

05 setembro 2022

Fraude contábil não é suficiente para manter chefão da Samsung na cadeia

Lee Jae-youg possui uma fortuna estimada em 11 bilhões de dólares. Apesar de ocupar formalmente o cargo de vice-presidente da Samsung Electronics, ele realmente quem comanda a empresa. Além de rico, Lee é poderoso, especialmente na Coréia do Sul. 


Tendo começado a trabalhar na empresa do seu pai, Kun-He, em 1991. Kun-He foi responsável por transformar a Samsung na empresa atual, mas em 1996 e 2008 foi condenado por corrupção e evasão tributária. Sua influência foi suficiente para obter o perdão em ambas as situações. 

Já seu filho, Lee Jae-youg, enfrentou problemas com a justiça coreana em 2017, quando o Ministério Público da Coréia do Sul acusou Lee de três crimes: suborno, peculato e perjúrio. As acusações contra Lee mostraram a influência dele no governo. A Coréia do Sul vivia uma onda de protestos contra sua presidente, Park Geun-hye, que terminou com seu impeachment. Estes protestos começaram em 2016; provavelmente as acusações contra Lee é uma das consequências do movimento popular. No caso de Lee, havia a acusação de suborno à Park Geun-hye e a uma amiga dela. 

Mesmo com as acusações, inicialmente a justiça coreana rejeitou a prisão. Mas logo a seguir, Lee foi preso, acusado de subornos de 38 milhões de dólares. Em troca do dinheiro, Park Geun-hye deveria apoiar a Samsung em um processo de fusão. A própria empresa admitiu ter feito contribuição para duas fundações em fins lucrativos controladas pela amiga da presidente Park Geun-hye. 

A opinião pública começou a pressionar contra os grandes grupos empresariais coreanos, denominados de chaebols. Em agosto de 2017, Lee foi condenado a cinco anos de prisão, mas alguns meses depois a sentença foi reduzida para dois anos e meio, tendo sua sentença sido suspensa. O resultado é que Lee foi solto depois de um ano de prisão. Em um novo julgamento, Lee foi condenado em janeiro de 2021 a dois anos e seis meses de prisão, sendo novamente preso. 

No mês passado, o atual presidente da Coréia perdoou Lee e argumentou que a Samsung era importante para economia (sic). 

O caso de Lee confirma a percepção popular que líderes empresariais são intocáveis e estão acima da lei. A maior fabricante de smartphones do mundo, marca global na área de eletrônicos, com atuação em diversos setores, a Samsung é muito importante para a Coréia do Sul. Mas chaebols significa redução da concorrência, restrição aos movimentos trabalhistas, suborno e corrupção. Quando os executivos são condenados, suas penas são reduzidas ou suspensas. O pai de Lee também foi condenado, mas não conheceu a prisão. 


Entre as acusações contra Lee, temos fraude contábil. Mas o perdão apaga o que ocorreu no passado. Conforme nota a BBC, apesar de existir uma concepção que os chaebols são importantes para a economia coreana, não existem provas concretas deste fato. Mais ainda, durante a fase que Lee estava afastado, na prisão, a empresa teve um bom desempenho. O mais curioso é que a aversão aos grandes grupos empresariais que existia há seis anos foi alterada: uma pesquisa mostrou que 70% das pessoas apoiavam o perdão. 

Foto: Daniel Bernard e Imdb

Museu Getty devolve estátuas para Itália e resolve um problema contábil

Um grupo de estátuas de terracota em tamanho real (foto abaixo) esta sendo devolvida para a Itália pelo museu Getty. O conjunto foi adquirido pelo J. Paul Getty, o milionário que fundou o museu com suas obras de artes, nos anos setenta. 

O museu teve como curador Jiri Frel, que recomendou a Getty, em 1976, a aquisição. Frel esteve envolvido em aquisição de itens de origem duvidosa ou retirados de vários países de forma ilegal. Este é o caso das estátuas. As esculturas foram produzidas entre 350 a 300 anos antes de Cristo, na colônia grega de Tarentum, atual Taranto, Itália.

Segundo o diretor do museu, via TheHistoryBlog, trata-se de um dos itens mais importantes da coleção do Getty. As estátuas foram compradas por 550 mil dólares, o que seria equivalente a 3 milhões nos dias atuais. Mas há uma estimativa que seu valor de mercado seria 8 milhões. 

Em termos contábeis, objetos de procedência duvidosa é um interessante desafio para o profissional. Em certa situações, a baixa liquidez pode comprometer sua mensuração. Mas existindo a possibilidade do museu perder seu acervo, uma vez comprovado que o objeto foi obtido por meio questionável, não deve constar como ativo. Recentemente a França devolveu inúmeros objetos que foram saqueados do Benin. Este caso é muito semelhante das estátuas do museu Getty.

Outros casos a chance de devolução talvez seja remota, seja pela falta de interesse de ter a obra de volta, ou pelo fato que não há registro fidedigno de quem é o verdadeiro dono, ou pelo fato que a devolução pode colocar em risco a obra, ou pela preciosidade da obra. Pense na pedra Roseta, que está no Museu Britânico. Este museu listou dez itens mais relevantes de sua coleção, sendo metade de origem duvidosa. 

A questão contábil inclui responder se o item roubado deve ser considerado um ativo; se deve estar reconhecido na contabilidade do museu que detém sua posse; e como mensurar. No caso do museu Getty, as estátuas serão devolvidas e estas questões já estão resolvidas. 




Empresas, investidores e contadores querem um alinhamento nas normas de sustentabilidade

No final de agosto, foi divulgado um documento redigido pelo Word Business Council for Sustainable Development (WBCSD), pelo Principles for Responsible Investment (PRI) e pelo Intenational Federation of Accountants (IFAC). A primeira entidade reúne executivos; a segunda, é uma rede de investidores, sob a coordenação da ONU. O IFAC é a entidade que congrega profissionais contábeis. Estas três entidades elaboraram um documento que foi assinado por 65 organizações, pedindo o alinhamento na regulação sobre sustentabilidade. 

A lista das 65 inclui empresas de auditoria (Big Four, BDO e GT), grupo de investidores e empresas. O termo da declaração pede que o ISSB, a SEC dos Estados Unidos e a Comunidade Européia possam evoluir nos relatórios com informações sobre a sustentabilidade. O texto deixa claro que os rascunhos atuais não são tecnicamente compatíveis em termos de conceitos, terminologias e métricas. 

Há uma solicitação que seja evitado a "fragmentação regulatória e de definição de padrões", com o alinhamento solicitado. 

Este é um documento interessante por várias razões. Inicialmente é importante destacar que o WBCSD tem uma elevada concentração de membros europeus. Mas a entidade já foi denunciada no passado, pelo Greenpace, por ser um dos principais atores responsáveis por impedir que as sociedades mundiais enfrentem as mudanças climáticas, sendo dominado por empresas de energia não renovável e poluidoras. Isto foi em 2011. 

Não reconheci nenhum participante brasileiro; como o Brasil faz parte do IFAC, talvez possamos dizer, forçando muito, que esta participação é indireta.